6 de jun de 2014

O texto abaixo - Visita de Despedida - foi em 28/11.

Ontem, às cinco e pouco da manhã, já abastecíamos o carro. Naquele posto Petrobrás que fica na saída da Bonocô para a BR.
Foram dois carros. Dois tios, um primo e minha avó no Ecosport de um destes. Eu e minha patota no meu Paliozinho.
Meu avô já estava lá.
Trezentos e cinqüenta quilômetros. Boa parte deles, de estrada destruída. De Capim Grosso até Serrolândia está melhor ir pela estrada de terra que margeia a estrada de asfalto, de tão esburacada que a "oficial" está. O carrinho sofreu horrores.
Visitamos vovó Avertina - minha bisavó por parte de mãe e avô.
Uma daquelas visitas "de despedida".
Vovó está a quatro anos de cama. Não enxerga. Entende, mas não consegue falar direito. Difícil a situação. Aí a gente vai, pega na mão dela, e fala:
"É Didio, vó! De Lessinha! Vim ver a senhora! Sua benção!"
E meu avô emendava contando as novidades, naquela perspectiva boa.
"Lembra de Dido, mãe? Tá um homão! Tá fazendo faculdade, e trabalha no banco já. Tem a casinha dele lá em Salvador..."
Apresentou Luca, meu sobrinho:
"É Luca! É seu tataraneto, mãinha! Filho de Luciana, de Lessinha..."
E Luquinha tocava nela meio sem jeito.
Minha mãe, minha avó, meu avô, passavam mais tempo ao seu lado, contando sobre outras pessoas, familiares, amigos de antigamente.
Nós tomamos uma cerveja no bar ali do lado, com os primos distantes de "Serrote", almoçamos, dormimos, acordamos, despedimos de minha bisavó, e pegamos a estrada de volta para Salvador. Saímos umas três e meia. Ainda demos um pulinho na fazenda de Tia Zó, mas sem tempo nem para aceitar o cafezinho. Agora, além dos nossos, o Focus do meu avô.
Chuva torrencial e noite na estrada. Risadas em família, buracos quase estourando pneus, bobagens, menino chorando, conversas soltas, apreensão pela situação, paradas em postos de gasolina para comer salgadinhos suspeitos.
Dez horas da noite, chegamos. Quebrados, depois de rodar mais de setecentos quilômetros de estrada ruim em um dia.
Consternados por "Dona Avertina". Contentes pelo gesto.
E, com o que não se pode lutar, a conformação.


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Nova visita.

Domingo agora ela se foi. A poucos dias entregou os pontos: no mal falado, baixo, rouco, os que estavam acostumados entenderam "eu quero morrer", "o que é que eu estou fazendo aqui?".
E se recusava a comer, comia pouco.
Vovó não sentia dor física. Estava, sim, presa demais pela sua condição. E, nem tinha pensado nisso antes, por manter-se consciente devia sofrer demais em saber da iminência da morte, e passar o dia sem poder distraír-se com a vida.
Dessa vez muito mais gente estava lá. Filhos, netos, bisnetos, tataranetos. E o que se viu foi paz e compreensão, no lugar da revolta. A tristeza, natural, acompanhada do sentimento de que era o melhor para ela.
E somou-se a isso o grande encontro da família, que a tanto não ocorria, e as notícias das vidas de todos, promessas de visitas... Quem sabe, algumas venham a se confirmar.
E a lembrança que me marca da minha bisavó era das vezes em que eu, menino, fui em Serrolândia. Ela, que já era bem velhinha, usava uns óculos grandes e grossos que a deixavam, para quem via, com olhos tão ampliados que ultrapassavam os limites do rosto. Para mim, parecia um personagem de contos de fadas. Por sua prestatividade, ela estava sempre indo buscar um café, um biscoito, bombom, e voltando em nossa direção. E a cena engraçada eram os olhos crescendo exponencialmente a cada passo...

[]´s

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