27 de mai de 2014

Era uma tarde quente...


A mesma aula de direito, de sexta, das nove à uma da tarde. Dessa vez eu cheguei mais cedo e estava sentado mais à frente. O professor falava ininterruptamente, com ênfases de voz, gesticulação abundante, interação com a turma. Havia aprendido o nome de uns quatro ou cinco alunos, aos quais pedia trechos de leitura, questionava alguns pontos do assunto, utilizava como exemplo para alguma lei.
A sala abafada, a acústica ruim, o burburinho constante, o calor que desanimava. Meu único alento era olhar aquela loira, ali perto. O professor sempre interagia com ela, o que me dava a desculpa perfeita para olhar para aquele lado.
A alguma altura dos acontecimentos o professor falou de sua profissão, delegado da civil. E, pouco depois, em algum desses exemplos, acionou a loira:

- Você, Helena! Você me disse que também é policial, né? Anda armada! Se acontecesse a situaç***...

O resto do que ele disse eu não pesquei. Depois da revelação de que ela era policial, o áudio da cena foi baixando, ficando confuso, insosso, e sumiu.
Essa Helena é minha colega em administração, e eu tenho reparado ela há uns dois semestres.
Pouco depois, por sugestão do grupo, o professor organizou a sala em semi-círculo. Ajudei com as cadeiras vazias, Helena bem ali do lado. Como não poderia deixar de ser, ficou uma cadeira vazia - porém com o material de alguém que devia ter ido ao banheiro, ou ao bebedouro - entre nós.
Logo após um comentário pertinente do professor sobre a igualdade de direitos, ela retrucou, virando para mim.

- É. Só que a mulher tem jornada tripla.
- Depende do caso.

Sorrimos cordialmente.
Pouco depois eu que puxei assunto:

- Ei.
- Hã.
- Não é cantada, não. Já reparou que você é completamente uma personagem de romance noir?
- Oi?
- É. Você é loura, bonita, elegante, dirige uma moto custom (ela tem uma Intruder 125 com bagageiros laterais de couro, que fica estacionada do lado da minha Tornado), e, ainda por cima, é policial civil. Sem falar no lugar onde você está. Uma sala abafada, monótona, com ventiladores funcionando devagar, sombra entrecortada, gente ordinária e desinteressada...
- Hahá. Gostei!
- ...
- ...

- E você? Que tipo de personagem você é?
- Eu?
- É.
- Nunca tinha pensado nisso... Mas eu não dava para grande coisa, não. Sou só um desses vira-latas que gosta de beber cerveja e jogar conversa fora.
- ...
- Acho que, na melhor das hipóteses, eu dava para ser o cara que toma cerveja, numa comédia. Talvez uma comédia romântica água com açúcar...
- Eu gosto de cerveja.
- ...
- ...
- Whisky combinaria mais... Mas... Tem alguma programação para hoje à noite?

É claro: tudo isso aí, a partir da hora que eu supostamente teria puxado assunto, não aconteceu. Foi um "flash-forward" desses, de personagem de comédia romântica. Desses que ficaram bem populares depois do Alta-Fidelidade. E que nunca realmente acontecem.

6 comentários:

Ni disse...

Vc posta cada coisa...pensei que já tivesse se endireitado...mas cm dizem por aí, pau que nasce torto...

Gabi disse...

esse Dido...

Ana Libório disse...

E eu te odiei pq me fez de boba!!!!rs!!!
Beijo!

maria. disse...

ô.!

um texto digno da tua grandeza.!
leve. feito pluma.!
e safado. porquê é seu.

húhú.!até a próxima cerveja.

Leonardo Caldas disse...

poderia tê-la pintado ruiva... imaginei a jessica rabbit.

quanto a tu, acho que um gigolô do jorge amado te cairia bastante bem! :)

filho disse...

e eu achando qe a policial era a responsável pelo fim do bigode de gigolô...
abçs.