27 de mai de 2014

A síntese da noite.


A insônia é parte de mim. Parte da minha natureza. Agora são duas e meia da manhã, e eu não durmo. Perambulo entre os cômodos recortando minha noite em distintos pedaços, assisto um filme, uma parte do jornal, como o primeiro produto numa bela embalagem que encontro na geladeira, vou ao banheiro, verifico as mensagens...
E penso. Nessas horas me ocorrem as pequenas bobagens que monto em peças e transformo em um pouco mais desta excrescência, seiva salgada da boca seca e da pele mal-dormida, transmutada em lama e depositada neste mangue tétrico, de letras e interessâncias em blogues e afins...
Noutros tempos, mais alegóricos, lembro-me de ter pintado este mesmo quadro com diferentes letras - "sinais jogados entre dois portos, refletidos à noite duma baía com águas crispadas, gritando Save Our Souls". Algo assim.
Pintado, dobrado, e entregue em meio a uma galeria de imagens que fariam sentido para alguém com os olhos certos...
Um destes recortes da minha noite, agora, me fez lembrar palavras recentes do meu avô. Eu aprendi a sério isso - ouvir os mais velhos. Garanto que tem muito valor. (De preferência, pulando ao menos uma geração.)
O velho conversou comigo sobre a distância das pessoas, sobre as marés da vida - não nestas palavras, que nosso papo é prático. Mas em suma, disse que estes tempos que não aproveitamos junto com quem é importante, eles não voltam. (É claro, mas é bom sintetizar.) E a vida é curta, mas o tempo perto destas pessoas é muito menor.
Porque por curta que a vida seja, ela tem sempre umas cheias e vazantes, uns terremotos, uns freios de arrumação...
"Quando eu vim trabalhar em Salvador, meu filho, ficou a promessa de que a gente ia sempre se ver - minhas irmãs, meu pai e minha mãe. A gente era bem unido! Meu pai e minha mãe já se foram. Mas hoje, quando é que eu posso ver minhas irmãs mais? Tenho que cuidar da família aqui, elas tem as famílias delas lá, fulano tá doente, beltrano foi transferido para Juazeiro, e assim a vida vai."
É um baita dum exemplo.
E eu sou um destes caras que se afasta.
Minha mãe, outro dia, disse que eu sou muito ocidental. (Talvez isso explique um pouco porque eu recomendo pular uma geração - ou talvez minha ocidentalidade chegue à falta de autocrítica.) Ocidental no sentido de indiscrição, desequilíbrio, descuidado.
Mas eu acho que vou aos poucos. Sabe como é que funciona?
Tem gente que chega chegando - na nossa vida, à nossa porta, para nossa festa de aniversário, para nos visitar num hospital. Falando alto, "e aí", se abanca, ocupa um espaço, agrada ou não.
Tem gente que chega aos poucos, com um sorriso por dia no trabalho, anos a fio, e depois um café, e depois e depois...
Tem gente que a gente rema para ficar longe, e às vezes nem tem tanta certeza assim...
Tem gente que vai embora tão fácil que você se sente como se nunca tivesse existido. Tem gente que, por tanto que eu tenha feito, não foi embora.
Tem gente que vai embora às lágrimas, aos berros, aos poucos. Gente que evapora, gente que foi mas mais parece que ficou. Gente que, quem sabe não tenha ido...
E a verdade, a síntese da noite (que faz a insônia, quem sabe, valer a pena), é que eu queria estar por perto de muita gente, e estou de muito pouca...

[]´s

6 comentários:

Ni disse...

Vou roubar..rs

Ninha disse...

Eu acho que a vida às vezes afasta as pessoas. Mas falando por mim, acho que a gente afasta tb. Eu ás vezes consigo me achar uma estranha nos lugares menos improváveis. às vezes eu acho que é ocidentalidade minha. Ocidentalidade no sentido de individualismo.

A Dido, xô aproveitar e contar. Parece que vai rolar uma carona praí no finde que vem.

Beijo

Leonardo Caldas disse...

sabe o que que eu acho? "save our souls" não poderia caracterizar melhor a nós, insones... sei exatamente a que sensação de impotência muda tu te referes... aquela sensação vazia e dolorosa de falta de todas as coisas que saíram erradas no dia... na semana... ah... na vida toda... e os amores que não se teve... e tudo que não se conquistou... e volta tudo nesse período meio incerto que não é dia... mas também não é noite... e daí, amigo, só o álcool e/ou o que mais for... é que não se dorme... só se entorpece...

e as pessoas... essas vem e vão... só me sobrou uma avozinha... cuido o melhor possível dela... e tento trazê-la o mais pra perto que conseguir. é meu jeito de imortalizá-la em mim.

gostei do texto, só pra variar um pouquinho.

anilina. disse...

é.
eu tô chorando.
apesar de ouvir 'acabou chorare'.

é que tem gente...

Patrícia disse...

Que texto lindo...

d1T0 disse...

de novo: sempre é tarde.