29 de mai de 2014

Autoridade de sopa.

Sopa.

Minha avó, em visita, me pergunta se eu não tenho autoridade para botar os meninos para tomar sopa.
Autoridade nem é a questão. Eu fico é com pena, mesmo.

Discriminado.

Discriminação no trabalho.

Armaram um baba. Aqui a média de idade dos funcionários - homens são bem uns vinte - deve estar pelos 42 anos. Destoamos eu e um outro funcionário, mais novo que eu na empresa, já que ele é do último concurso, e que de idade é uns três anos mais velho que eu. Tô com 25. Mas ele não conta, na história, porque é um desses caras do tipo que não joga futebol.
Só que eu jogo. E o pessoal fez uma regra séria no baba, que a idade mínima para jogar seria de 35 anos.
A regra não serviu só para me cortar. Funcionários de outros setores falaram em levar filhos, sobrinhos, e a galera vetou implacavelmente. Ainda tentei argumentar que eu não era filho nem sobrinho de ninguém, que eu era colega, aqui, e tal, e que eu nem jogava bem. Um dos colegas considerava autorizar minha entrada.
- É, Alex. Diógenes dá para encarar. Nem é esse boleiro todo, mesmo, não!
- É! Não é esse boleiro todo mas, menino novo, assim, começa a correr e quem é que acompanha? Você que vai marcar?
- É... bem... por esse lado, então...
Não insisti mais. Não quero ir aonde não sou bem vindo. E até achei engraçado, o pessoal tendo "medo" de meu futebol. Melhor nem ir mesmo, para não estragar a fama... :)

[]´s

They don't believe me!'


Enroleition

I was a little high, riding the car, singing "The Trawlerman's Song", following the player. Driving, singing, playing an imaginary guitar, and certainly smiling.
My friend Ludmilla hadn't any shame of to ask:

- Você tá cantando mesmo, ou é só enroleition?

Maybe it's cause of my stile. People wouldn't bet a single coin on me.

[]´s

28 de mai de 2014

Qualquer coisa - Cena.

O bebê morreu com cinco meses, do quê não vem ao caso. Era 1966 e as cores das ruas, dos carros, das casas, das árvores, e até do céu eram diferentes. Só a sombra tinha essa mesma cor.
O caixão era muito pequeno e branco, e minha mãe, Mima e quatro amigas que os nomes não me vem, foram chamadas para carregá-lo, todas com cinco anos de idade.
Preocupadas em como se vestir, resolveram por vestidos coloridos de São João.
E passou assim a marcha fúnebre, pelas ruas de Jacobina, às duas horas da tarde. O sol sobre o pequeno caixão branco produzia uma luz ofuscante, que fazia as meninas apertarem os olhinhos, que iluminava os vestidos, dois cor-de-rosa, um amarelo, um azul, um verde, um vermelho.
Os que seguiam, olhavam com lágrimas de um desespero profundo.
Mas, na foto, tudo é preto e branco.

[]´s

Mamãe e o ar-condicionado.

Qualquer coisa - Minha velha mãe e o ar-condicionado.

Desde que, há poucos meses, sou o "porto seguro" da família Pacheco repartição Trapo. como gostava de dizer meu ex-padrasto, coleciono algumas anedotas interessantes.
Duas delas dizem respeito à minha velha mãe, hospedada há menos de três meses aqui, mas desde antes freqüentadora habitual.
Ela, que é a única que tem uma posição familiar, dentro de um conceito amplo, suficiente para possibilitar o repouso em meu quarto sem meu prévio consentimento.
O primeiro curioso acontecido foi quando, depois de uma bela noitada, cheguei em casa às seis da manhã. O ar-condicionado estava desligado. Ela foi para o quarto dela e eu, depois de tomar banho, escovar os dentes, etc, embalei na cama e liguei o ar.
Para minha surpresa, lá marcava 15º.
No outro dia, ao ter com minha respeitável genitora, indaguei.

- Mãe? Tava bom ontem o clima no quarto?
- Filho! Eu botei o ar no mais fraquinho, que eu nem gosto muito de tanto frio, mas ficou insuportável o quarto!
- No mais fraquinho?
- É... Era a potência 15, se não me engano.
- O número tá certo, mãe... mas aquilo quer dizer quinze graus...
- Ohh!

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E hoje, tô tomando cerveja desde umas seis horas da tarde, mas fiz questão de vir escrever aqui (04:30 da manhã). Cheguei e o quarto estava trancado. Desde lá de baixo tinha percebido o ar ligado. Fiquei receoso dela estar com o namorado no quarto, já que ele tem vindo muito aqui e... bem... essas histórias davam um capítulo à parte, que eu NÃO quero contar.
Bati na porta e ela saiu com uma cara acabada. (Sozinha, ao menos)
Fiquei um pouco preocupado.

- Tava chorando, mãe?
- Não, filho. Tava em sono profundo.
- Ah...
- Esse seu quartinho com ar-condicionado é uma maravilha para dormir!
- Falou. Boa noite!
- Boa.

Quando fui ver, o ar estava no modo ventilador, e ainda por cima na potência média. E a noite tá tranqüilamente para mais de trinta graus... :)
Hehehe... Amanhã eu conto! :)

Xô voltar 100% da atenção prá Fórmula 1, que Schummacher acabou de rodar e Rubinho tá em quarto! :)

[]´s

Luca Melo e o carrinho quebrado.

Causo - Luca e o carrinho.

Luca é meu sobrinho. Quatro anos.
Ontem ganhou um carrinho de controle remoto. Um porschezinho vermelho, nada demais, mas bacaninha.
Dei o presente e saí por duas horinhas. Quando voltei, ele estava do lado de fora da porta de casa, na área comum. O prédio é escada, dei de cara com o moleque.

- Tio Didio! Tio Didio!
- Diga, cara!!
- Eu não quebrei o carrinho não, viu?
- Mas... o carrinho tá quebrado?
- Não! Tá funcionando!

Sei.
Perguntei para Ana. O carrinho tinha descido escada abaixo, e após tal experiência cinematográfica, não vinha apresentando total controle de suas funções motoras.
Mexi no carrinho - a bateria estava baixa. Certamente o atrito das rodas aumentou no acidente, e com a bateria já baixa, o motor não empurrava. Troquei as baterias e funcionou.
Luca estava brincando no térreo, e deixei para avisar depois.
Mais tarde, conversando com sua bisavó, minha avó Maria, fazia-se de coitadinho e queixava-se:

- Vovó Lessi me deu um pintinho que pula! Tio Didio me deu um carrinho, mas já quebrou!

Percebendo que tinha falado na minha frente, e que eu olhei para a cara dele, imediatamente consertou, afastando o telefone do ouvido.

- Quebrou mas foi só um pouquinho, viu tio?

Moleque...


[]´s

Péssimo para soletrar.

S de ... "sacanagem"!

Eu não sei por que diabos, mas eu sou péssimo soletrador.

- Qual é seu código de embarque, senhor?
- IM44FH.
- O senhor pode soletrar, por favor?
- Claro. É I de... de... "Imóvel". (A esta altura eu já estou num misto de nervoso e rindo de mim mesmo. E é 0300.). M... de...
- Perdão, senhor. I, como em "Igreja"?
- Isso! (Por que diabos não pensei em Igreja antes?) M de... de... (passam-me pela cabeça palavras ridículas como Matuto, Malvinas, Mira...)
- N de navio, senhor?
- Não! M. M de...
- M de Maria, senhor?
- É. M de Maria! (Maria era fácil!!) Depois quatro, quatro, F de faca (essa também paciência) e H de... de... (sem sacanagem, só conseguia pensar num Helefante, mas não tem H, e eu perdi minha concentração no esforço de evitar rir alto...)

[]´s

Catástrofe.

Cotidiano - Microsoft Catástrofe.
Olha o quilo da mensagem de erro que o Access me deu. Uma vez, muito tempo atrás, em outro banco de dados, mandei o Access fazer uma operação e ele demorou, demorou, tomei cafezinho, falei no telefone, demorou, não fez o que eu pedi e me retornou outra pérola: "Ocorreram 97.442 erros durante a operação". Podia ter me avisado logo no primeiro - me poupava uns quarenta minutos...
[]´s

Capacidade de julgamento prejudicada.

Nem sempre o que parece um bom assunto às três da madrugada continua parecendo pela manhã.

[]´s

O dia mágico.

Eu adio a curtição - boa parte dela -, para aquele dia mágico no futuro, quando todos os meus problemas estarão resolvidos.
Estava algo animado, atualmente, com a casa nova. Pensando que o dia em que eu me mudasse, e ajeitasse a casa direitinho, poderia ser esse dia prometido.
Estou fazendo planos de devolver os livros que nunca devolvi, aproveitando a reorganização da mudança. Doar metade do meu armário, jogar uns bons quilos de papéis velhos fora, me desfazer dessa cadeira velha do computador, que me dá dores nas costas, comprar um liquidificador novo e decente, uma mesa de sinuca, estabelecer um dia na semana para a turma (ou o que for possível recompor da velha turma) ir jogar um sinuca lá em casa, comprar uma rede para a varanda, um par de cachorros, levar a TV para a assistência, comprar um som decente, ver todo mundo que eu há muito estou querendo ver.
Mas estive pensando que meu eldorado não está assim tão próximo. Enquanto eu não me formar, meu tempo continua apertado, e a melhora da qualidade de vida fica em compasso de espera.
E depois de me formar, ao bem da verdade, vou querer melhorar no emprego ou de emprego.
O certo é parar de adiar.

Presente de Ana

Ana é tipo minha segunda mãe, por circunstâncias da vida. Fez aniversário em fevereiro. Minha velha mãe, Lessi, a titular da pasta, quando conversamos sobre isso sugeriu:

- Você, Luciana e Davi deveriam esse ano dar um presente legal para Ana!

Concordei. Ano passado, afinal, nem lembro se dei presente. Se dei, foi fraco.
Com um bom atraso fui ao Iguatemi. Comprei alguns presentes que estavam pendentes e o de Ana foi o com limite mais alto de preço, para fazer jus à proposta. Não digo quanto foi porque seria uma deselegância. Foi uma bolsa bacana, mesmo.

Deixei em casa com Davi, encomendado para Ana, quando porventura ela aparecesse. Quando apareceu, abriu o presente e minha mãe viu.

Eis que esses dias, pouco depois do episódio, estive em casa, e minha mãe, com cara e jeito de sentida, me diz:

- Eu vi o presente que você deu para Ana!
- Ué? Não gostou? Foi uma bolsa legal!
- Muito legal! Quero ver é no meu aniversário!!
- ... ? Mas você mesma disse que eu deveria dar um presente legal para Ana!!
- É. Mas comigo não é assim!

Boca de zero nove, minha mãe.

Umas cervejinhas...

Retornei uma ligação que Mariazinha tinha me feito mais cedo, sem saber do que se tratava, e, após os cumprimentos habituais, veio a pergunta.

- Ó... Você não quer umas cervejinhas, não?
- Hã?

Foi meio inesperado, a primeira impressão foi que tinha sido um jeito estranho de chamar para tomar uma, mas logo associei com a festa de Maurício que havia acontecido esse sábado, e da qual, pelo que me lembro (saí no lixo) sobrou um bocado de cerveja, realmente. E como a referência de cachaceiro soy yo...

- Sobrou da festa de Maurício e você não tá sabendo o que fazer com elas, né, tia?
- É.
- Quero, sim! Valeu.
- Mas não é só isso, não. Tenho que tirar da geladeira de minha mãe, que ela chega de viagem amanhã. Vai ficar feio sua vó chegar e achar a geladeira dela cheia de cerveja, né?
- Ah, claro! Hehe... Passo para buscar hoje à noite!

(Entendi...)

27 de mai de 2014

Amarero.

Causo - Luca amarelo.

Luca descendo a escada hoje cedo para ir à escola:
- Vóóó, quando eu fecho o olho assim apertado depois eu abro e fica tudo amarelo!
- Ei vóóó! ... eu falei "amarero" direitinho! Eu não sabia falar "amalero" mas agora eu já sei!

Visita a Avertina.


Ontem, às cinco e pouco da manhã, já abastecíamos o carro. Naquele posto Petrobrás que fica na saída da Bonocô para a BR.
Foram dois carros. Dois tios, um primo e minha avó no Ecosport de um destes. Eu e minha patota no meu Paliozinho.
Meu avô já estava lá.
Trezentos e cinqüenta quilômetros. Boa parte deles, de estrada destruída. De Capim Grosso até Serrolândia está melhor ir pela estrada de terra que margeia a estrada de asfalto, de tão esburacada que a "oficial" está. O carrinho sofreu horrores.
Visitamos vovó Avertina - minha bisavó por parte de mãe e avô.
Uma daquelas visitas "de despedida".
Vovó está a quatro anos de cama. Nao enxerga. Entende, mas não consegue falar direito. Difícil a situação. Aí a gente vai, pega na mão dela, e fala:
"É Didio, vó! De Lessinha! Vim ver a senhora! Sua benção!"
E meu avô emendava contando as novidades, naquela perspectiva boa.
"Lembra de Dido, mãe? Tá um homão! Tá fazendo faculdade, e trabalha no banco já. Tem a casinha dele lá em Salvador..."
Apresentou Luca, meu sobrinho:
"É Luca! É seu tataraneto, mãinha! Filho de Luciana, de Lessinha..."
E Luquinha tocava nela meio sem jeito.
Minha mãe, minha avó, meu avô, passavam mais tempo ao seu lado, contando sobre outras pessoas, familiares, amigos de antigamente.
Nós tomamos uma cerveja no bar ali do lado, com os primos distantes de "Serrote", almoçamos, dormimos, acordamos, despedimos de minha bisavó, e pegamos a estrada de volta para Salvador. Saímos umas três e meia. Ainda demos um pulinho na fazenda de Tia Zó, mas sem tempo nem para aceitar o cafezinho. Agora, além dos nossos, o Focus do meu avô.
Chuva torrencial e noite na estrada. Risadas em família, buracos quase estourando pneus, bobagens, menino chorando, conversas soltas, apreensão pela situação, paradas em postos de gasolina para comer salgadinhos suspeitos.
Dez horas da noite, chegamos. Quebrados, depois de rodar mais de setecentos quilômetros de estrada ruim em um dia.
Consternados por "Dona Avertina". Contentes pelo gesto.
E, com o que não se pode lutar, a conformação.
[]´s

Frio em Conquista.


Sete e meia da noite todo mundo dorme. Às onze trago uma água, através do velho corredor. As portas e janelas do quarto fechadas. O corpo enrolado com dois cobertores, exceto a mão esquerda, que mantém sob a luminária um livro velho. Com aquele cheiro bom de livro velho. Guardado na estante há trinta anos.

Os móveis, as paredes, as cortinas e as pinturas, meu avô e minha avó. Toda a casa parece ter sido guardada na estante há trinta anos. É o único lugar no mundo que continua o mesmo para mim, desde sempre. É a casa onde viveu meu pai.

Mas ainda esse ano vão comprar, demolir e começar a erguer um prédio comercial.

E depois disso, possivelmente, nunca mais pego o ônibus para Conquista...

A síntese da noite.


A insônia é parte de mim. Parte da minha natureza. Agora são duas e meia da manhã, e eu não durmo. Perambulo entre os cômodos recortando minha noite em distintos pedaços, assisto um filme, uma parte do jornal, como o primeiro produto numa bela embalagem que encontro na geladeira, vou ao banheiro, verifico as mensagens...
E penso. Nessas horas me ocorrem as pequenas bobagens que monto em peças e transformo em um pouco mais desta excrescência, seiva salgada da boca seca e da pele mal-dormida, transmutada em lama e depositada neste mangue tétrico, de letras e interessâncias em blogues e afins...
Noutros tempos, mais alegóricos, lembro-me de ter pintado este mesmo quadro com diferentes letras - "sinais jogados entre dois portos, refletidos à noite duma baía com águas crispadas, gritando Save Our Souls". Algo assim.
Pintado, dobrado, e entregue em meio a uma galeria de imagens que fariam sentido para alguém com os olhos certos...
Um destes recortes da minha noite, agora, me fez lembrar palavras recentes do meu avô. Eu aprendi a sério isso - ouvir os mais velhos. Garanto que tem muito valor. (De preferência, pulando ao menos uma geração.)
O velho conversou comigo sobre a distância das pessoas, sobre as marés da vida - não nestas palavras, que nosso papo é prático. Mas em suma, disse que estes tempos que não aproveitamos junto com quem é importante, eles não voltam. (É claro, mas é bom sintetizar.) E a vida é curta, mas o tempo perto destas pessoas é muito menor.
Porque por curta que a vida seja, ela tem sempre umas cheias e vazantes, uns terremotos, uns freios de arrumação...
"Quando eu vim trabalhar em Salvador, meu filho, ficou a promessa de que a gente ia sempre se ver - minhas irmãs, meu pai e minha mãe. A gente era bem unido! Meu pai e minha mãe já se foram. Mas hoje, quando é que eu posso ver minhas irmãs mais? Tenho que cuidar da família aqui, elas tem as famílias delas lá, fulano tá doente, beltrano foi transferido para Juazeiro, e assim a vida vai."
É um baita dum exemplo.
E eu sou um destes caras que se afasta.
Minha mãe, outro dia, disse que eu sou muito ocidental. (Talvez isso explique um pouco porque eu recomendo pular uma geração - ou talvez minha ocidentalidade chegue à falta de autocrítica.) Ocidental no sentido de indiscrição, desequilíbrio, descuidado.
Mas eu acho que vou aos poucos. Sabe como é que funciona?
Tem gente que chega chegando - na nossa vida, à nossa porta, para nossa festa de aniversário, para nos visitar num hospital. Falando alto, "e aí", se abanca, ocupa um espaço, agrada ou não.
Tem gente que chega aos poucos, com um sorriso por dia no trabalho, anos a fio, e depois um café, e depois e depois...
Tem gente que a gente rema para ficar longe, e às vezes nem tem tanta certeza assim...
Tem gente que vai embora tão fácil que você se sente como se nunca tivesse existido. Tem gente que, por tanto que eu tenha feito, não foi embora.
Tem gente que vai embora às lágrimas, aos berros, aos poucos. Gente que evapora, gente que foi mas mais parece que ficou. Gente que, quem sabe não tenha ido...
E a verdade, a síntese da noite (que faz a insônia, quem sabe, valer a pena), é que eu queria estar por perto de muita gente, e estou de muito pouca...

[]´s

Era uma tarde quente...


A mesma aula de direito, de sexta, das nove à uma da tarde. Dessa vez eu cheguei mais cedo e estava sentado mais à frente. O professor falava ininterruptamente, com ênfases de voz, gesticulação abundante, interação com a turma. Havia aprendido o nome de uns quatro ou cinco alunos, aos quais pedia trechos de leitura, questionava alguns pontos do assunto, utilizava como exemplo para alguma lei.
A sala abafada, a acústica ruim, o burburinho constante, o calor que desanimava. Meu único alento era olhar aquela loira, ali perto. O professor sempre interagia com ela, o que me dava a desculpa perfeita para olhar para aquele lado.
A alguma altura dos acontecimentos o professor falou de sua profissão, delegado da civil. E, pouco depois, em algum desses exemplos, acionou a loira:

- Você, Helena! Você me disse que também é policial, né? Anda armada! Se acontecesse a situaç***...

O resto do que ele disse eu não pesquei. Depois da revelação de que ela era policial, o áudio da cena foi baixando, ficando confuso, insosso, e sumiu.
Essa Helena é minha colega em administração, e eu tenho reparado ela há uns dois semestres.
Pouco depois, por sugestão do grupo, o professor organizou a sala em semi-círculo. Ajudei com as cadeiras vazias, Helena bem ali do lado. Como não poderia deixar de ser, ficou uma cadeira vazia - porém com o material de alguém que devia ter ido ao banheiro, ou ao bebedouro - entre nós.
Logo após um comentário pertinente do professor sobre a igualdade de direitos, ela retrucou, virando para mim.

- É. Só que a mulher tem jornada tripla.
- Depende do caso.

Sorrimos cordialmente.
Pouco depois eu que puxei assunto:

- Ei.
- Hã.
- Não é cantada, não. Já reparou que você é completamente uma personagem de romance noir?
- Oi?
- É. Você é loura, bonita, elegante, dirige uma moto custom (ela tem uma Intruder 125 com bagageiros laterais de couro, que fica estacionada do lado da minha Tornado), e, ainda por cima, é policial civil. Sem falar no lugar onde você está. Uma sala abafada, monótona, com ventiladores funcionando devagar, sombra entrecortada, gente ordinária e desinteressada...
- Hahá. Gostei!
- ...
- ...

- E você? Que tipo de personagem você é?
- Eu?
- É.
- Nunca tinha pensado nisso... Mas eu não dava para grande coisa, não. Sou só um desses vira-latas que gosta de beber cerveja e jogar conversa fora.
- ...
- Acho que, na melhor das hipóteses, eu dava para ser o cara que toma cerveja, numa comédia. Talvez uma comédia romântica água com açúcar...
- Eu gosto de cerveja.
- ...
- ...
- Whisky combinaria mais... Mas... Tem alguma programação para hoje à noite?

É claro: tudo isso aí, a partir da hora que eu supostamente teria puxado assunto, não aconteceu. Foi um "flash-forward" desses, de personagem de comédia romântica. Desses que ficaram bem populares depois do Alta-Fidelidade. E que nunca realmente acontecem.

Falha interna de comunicação.

Estou numa falta de tempo crônica - com oito matérias na faculdade mais trabalho e coisas a resolver da casa, da moto, etc -, e fico deixando lembretes para mim mesmo.
Pequenas mensagens que envio para mim mesmo, para depois, ao lê-las, lembrar de ler um blogue tal, escrever um texto sobre tal idéia, me inscrever num concurso tal, de fazer uma determinada coisa. Não são só as mensagens: lembretes na agenda do celular, octavados escritos dentro da carteira...
Mas a verdade é que, não porquê não queira, mas por falta de tempo livre, acabo por nunca ver os tais lembretes do que adiei quando estava muito ocupado.
Estou sempre muito ocupado. E a conseqüência é uma falha na comunicação. A comunicação comigo.