5 de out de 2010

O coração do homem-bomba

O coração do homem-bomba faz tum-tum / Até o dia em que ele fizer bum
Brasília está fazendo um calor miserável, e hoje eu dei uma corrida de uns quinhentos metros para pegar o ônibus. O motorista brincou simpaticamente, quando entrei, que meu preparo físico estava bom.
 
Comecei a ir a uma psicóloga no final do ano passado, por insistência da minha avó, e ela não me dizia nada. Só perguntava uma coisa vez ou outra, direcionando o quase monólogo para algum lado. Era como se, fazendo as perguntas certas, ela me levasse a ter que pensar em alguma coisa importante, significativa.
 
Eu penso bastante, sozinho, sobretudo à noite, durante minhas horas a mais de insônia. Não me escondo de mim. E só re-significo alguma coisa quando acredito mesmo em alguma nova conclusão, não superficialmente para atender conveniências emocionais e éticas.
 
Estou trabalhando ao lado de uma menina bem mimada. Ela tem um cargo gerencial e reclama do salário, que é quase duas vezes o que eu ganho. Entrou na empresa depois de mim. Diz que o salário é muito baixo para a barra pesada que o cargo dela traz consigo. "Essa miséria de salário que me pagam". Se sente no direito de algo melhor. Sem querer desvalorizar seu trabalho, mas não é nada tão complicado assim.

Eu mantenho o equilíbrio, ouço os chiliques e respondo com calma e educação, e fico levando nãos no discurso "se vocês me derem essa oportunidade não vão se arrepender", "estou preparado para os desafios", com minha cara de banana.
 
Eu estou atrasado na carreira e na vida como um todo. Não é de surpreender. Tenho uma constante atitude de ser generoso e/ou devedor, que me deixa por baixo em todo o tipo de relacionamento, de conserto do carro a relações familiares, de namoro a carreira profissional. Talvez, mas só talvez, isso comece com culpas da infância e adolescência, de ser o algoz da minha irmã, e até construções mais complexas relativas aos problemas familiares complicados pelo qual passei na juventude e à minha posição nisso tudo. Não entendo o bastante para construir boas teorias sobre essas coisas, mas acho que há essa hipótese.
 
Muitos homens encontram válvulas de escape em farras, mulheres sem compromisso e até prostitutas, por aí. Estava conversando com dois conhecidos, um deles casado, esses dias, e apareceu esse tipo de coisa. Muitas vezes aparece – é uma coisa bem comum. E muita gente tem uma imagem errada, superficial de mim. Acha que eu me enquadro nisso aí. Eu entendo que haja motivos para pensar assim. Superficiais. Mas eu estou mais perto do oposto disso. Sem frescura, mas importa muito mais para mim carinho, cuidado, atenção, sentimento.
Não sei dançar essa dança, e sinceramente não tenho vontade. Tomei um baque daqueles agora, destruidor e inesperado. Como sempre mantenho o equilíbrio, a calma, a civilidade, a duras custas. As explosões ficam doendo aqui dentro, em algum lugar. Esses dias estão muito tristes. Eu telefono para longe em busca de ajuda, e ganho umas respostas do tipo “seja homem”, “deixe de drama”. Poucas vezes na minha vida fiquei arrasado, mas das vezes que fiquei, ouvi isso aí.
 
Sou o homem branco, jovem, forte. Algoz e devedor dessa comunidade imaginada. Tomando cerveja, fumando cigarros, mastigando mulheres com os dentes, conquistando o mundo em cima de uma moto. Acaba colando em mim esse cartaz, com poucos proveitos e uma boa monta de débitos eternos e impagáveis.
 
Mas eu também tenho um coração. E, caralho, como dói...