13 de mai de 2010

Férias em Sampa

Um café com leite médio, por favor.
Fico observando, no Shopping 25 de março, os filhotes dos orientais. Japonês, chinês, coreano, já é um bicho simpático, para não dizer fofo, em qualquer idade. Quando é filhotinho então, trocando as pernas e te olhando com curiosidade, é pior que filhote de cachorro.
Saio do meio daquela confusão, como um pastel com água de côco no Mercado Municipal, e é só caminhar de volta até a Sé que viro de novo um pontinho isolado de humanidade em meio àquele caldeirão. Executivos, pregadores, empresários, ambulantes, empregados de loja. Todos parecem objetivos, andando rápido, seguros de si, como quem tem mais o que fazer, não tem tempo para bobagens.
Eu visto minha melhor cara de sério, aperto o passo, e finjo bem que sei para onde estou indo. Não sei de nada. Me perco, tomo um café com leite em copo de cerveja, em um desses tantos bares-lanchonete bem paulistanos mesmo, bem objetivamente para manter as aparências, e saio rápido de novo para qualquer lado, até mesmo voltando de onde vim.
Caminhando pelas ruas, entrando num ônibus qualquer, ouço uma paulistaninha dessas com cara de ratinho falar para outra que isso é coisa de baiano, meu! Baianada! Dá licença!
Volta e meia tem-se que engolir uma dessas a seco. Mas todo mundo que eu conheci, para quem eu disse de onde era, me recebeu bem. Não sem outra pitada de ignorância, muitas vezes... Mas você é da Bahia? Nem parece!
Imagino que parecer da Bahia requeira um tantinho mais de melanina, se possível umas tranças no cabelo, uma camisa com as cores da Jamaica, e permanentemente cantarolar Chiclete com Banana. Ou Ivete. No mínimo, Asa, e olhe lá. Umas fitas do Senhor do Bonfim provavelmente ajudam, também...
Você sai de lá e vem para cá passar as férias? Fico me sentindo um alien. Já tentei ser simpático e dizer que gosto daqui, mas a pergunta persiste e continuo com cara de bobo. Já pensei em inventar qualquer coisa, minha tia avó nas últimas, coitadinha, no Instituto do Câncer, ou é que estou abrindo uma padaria na Augusta.
Pego o primeiro metrô de uma madrugada a treze graus, depois de uma noite de insônia, só para passear. Sou meio o alien, mesmo. Tomo um café no fim da tarde na Praça da República, e um africano grita alguma para outro a meia distância em sua língua natal. Tomo um café à noite na Paulista e vejo uma senhora elegante entrar no café com o seu pinscher, também muito elegante, e puxar uma cadeira para o canto. No passeio madrugador de metrô fui até a Paulista, também: subi na estação Consolação, caminhei até a Brigadeiro, e entrei de novo. Não achei nenhum canto aberto para tomar um café, lá. São Paulo dorme, apesar do que dizem... Eu é que não. Tomo um café quando volto, já dando seis da manhã, na Praça da República, junto com os trabalhadores. Um salgado, uma água de côco, meu remédio, e caminho de volta para a minha cama, para dormir. Nas férias tudo é mais fácil.
Assisto o Flamengo vencer na Vila Madalena, tomo uma cerveja com um Frango a, vejam só, Passarinho, na Augusta, fumo um cigarro do lado de fora do bar no Arouche, e admiro os casais de meninas. Aliás, em qualquer canto se vê bastante, na maior naturalidade, o que é mais um ponto a favor de Sampa. Gays, cearenses, baianos, japoneses, bolivianos, africanos, negros, brancos, nisseis, sanseis, mais japoneses, coreanos, palmeirenses, já vi até gente andando com a camisa do Bahia, ciclistas, executivos, pessoas com malas grandes, pessoas pobres, pessoas ricas, emos, moderninhos, gordos, roqueiros, gente com piercings estranhos e tatuagens ainda mais estranhas, deficientes, casais em atitudes excessivamente fofas, jovens, velhos, pessoas que pedem informação em inglês, gente com roupas diferentes... Todo mundo se mistura no metrô, nas avenidas, no passo apressado, nas feirinhas de domingo e confusões, e ninguém tá nem aí para qual é a do outro. A cidade é cosmopolita já por inércia, costume, porque todo mundo tem mais o que fazer do que ficar procurando motivos bestas para ter problemas com os outros. Lógico que sempre sobram uns idiotas, mas são pontos fora da curva. São Paulo acolhe bem.
Eu ainda venho morar aqui, conhecer um pouco mais esses lugares, essa gente, ganhar dinheiro, e morrer de saudade de Salvador...

7 comentários:

Leila Hupsel disse...

Para noites de insônia: O Estadão!
Beijos!!

A mãe disse...

Você é um moleque. Aposto que existe uma excelente clínica para mapear o sono aí em São Paulo e você tá com uma requisição na mão... Em vez de aviar o exame fica curtindo pra valer a insônia por puro diletantismo!

lucyenne disse...

Uau Dido,

Fiquei morrendo de vontade de estar ai.....Tenho mesmo que perder esse medo besta de avião....

Bjos

Saudades

Loura

Alexânia disse...

Também tô aprendendo a viver aqui. Cidade louca danada...

Anônimo disse...

A parada gay paulistana vai ter agora 10.000.001 indivíduos!!!

Tio Vanzinho

Ana Libório disse...

Acho que só eu que não tenho vontade de morar em São Paulo...rs!!

ane. disse...

ah, Dido...prometo que um dia ainda te levo pra tomar uma Santa Cerva numa esquina da paulista...
pra achar exatamente tudo isso aí de SP. morrer de encantos e saudades.
e confirmar: nunca moraria aí!