25/03/2008
Métodos.
Éramos outras pessoas, tínhamos outros gingados, outras percepções. Talvez menos juízo, mas nem tão menos. Aquela noite, inclusive, terminaríamos numa roubada, mas isso é substância para outra história.
Eu tive minha primeira moto, minhas aventuras de moto, minhas amantes, descobertas, minha faculdade interminável, meus fiéis camaradas, meu tempo em Candeias (e olha que esse item não é para qualquer um). Aprendi e desaprendi muita coisa. Meus dramas e minhas cenas, já tive também. Uma ou outra extravagâncias, um bocado de contingências.
Eu vejo lá no banco, não é regra, mas muito menos exceção, essa gente de métodos. Gente matinal. Pessoas que tomam de manhã seus Activias, comem fibras, praticam esportes, chegam cedo no trabalho, tem resposta para tudo, cuidam muito da família, arranjam tempo para ler, para visitar o interior, trocam de carro todo ano, saúde de ferro, amigos de sobra, futuro promissor. São pessoas casadas e felizes, ou, no máximo, solteiras convictas e felizes. Eu gosto dessas pessoas.
Eu me canso de ser tão mal-resolvido. Mas não sei se quero passar para o outro lado algum dia.
"Não dá. Amanhã tenho que acordar cedo para ir para o squash..."
(Não combina.)
14/03/2008
Era uma tarde quente...

A mesma aula de direito, de sexta, das nove à uma da tarde. Dessa vez eu cheguei mais cedo e estava sentado mais à frente. O professor falava ininterruptamente, com ênfases de voz, gesticulação abundante, interação com a turma. Havia aprendido o nome de uns quatro ou cinco alunos, aos quais pedia trechos de leitura, questionava alguns pontos do assunto, utilizava como exemplo para alguma lei.
A sala abafada, a acústica ruim, o burburinho constante, o calor que desanimava. Meu único alento era olhar aquela loira, ali perto. O professor sempre interagia com ela, o que me dava a desculpa perfeita para olhar para aquele lado.
A alguma altura dos acontecimentos o professor falou de sua profissão, delegado da civil. E, pouco depois, em algum desses exemplos, acionou a loira:
- Você, Helena! Você me disse que também é policial, né? Anda armada! Se acontecesse a situaç***...
O resto do que ele disse eu não pesquei. Depois da revelação de que ela era policial, o áudio da cena foi baixando, ficando confuso, insosso, e sumiu.
Essa Helena é minha colega em administração, e eu tenho reparado ela há uns dois semestres.
Pouco depois, por sugestão do grupo, o professor organizou a sala em semi-círculo. Ajudei com as cadeiras vazias, Helena bem ali do lado. Como não poderia deixar de ser, ficou uma cadeira vazia - porém com o material de alguém que devia ter ido ao banheiro, ou ao bebedouro - entre nós.
Logo após um comentário pertinente do professor sobre a igualdade de direitos, ela retrucou, virando para mim.
- É. Só que a mulher tem jornada tripla.
- Depende do caso.
Sorrimos cordialmente.
Pouco depois eu que puxei assunto:
- Ei.
- Hã.
- Não é cantada, não. Já reparou que você é completamente uma personagem de romance noir?
- Oi?
- É. Você é loura, bonita, elegante, dirige uma moto custom (ela tem uma Intruder 125 com bagageiros laterais de couro, que fica estacionada do lado da minha Tornado), e, ainda por cima, é policial civil. Sem falar no lugar onde você está. Uma sala abafada, monótona, com ventiladores funcionando devagar, sombra entrecortada, gente ordinária e desinteressada...
- Hahá. Gostei!
- ...
- ...
- E você? Que tipo de personagem você é?
- Eu?
- É.
- Nunca tinha pensado nisso... Mas eu não dava para grande coisa, não. Sou só um desses vira-latas que gosta de beber cerveja e jogar conversa fora.
- ...
- Acho que, na melhor das hipóteses, eu dava para ser o cara que toma cerveja, numa comédia. Talvez uma comédia romântica água com açúcar...
- Eu gosto de cerveja.
- ...
- ...
- Whisky combinaria mais... Mas... Tem alguma programação para hoje à noite?
É claro: tudo isso aí, a partir da hora que eu supostamente teria puxado assunto, não aconteceu. Foi um "flash-forward" desses, de personagem de comédia romântica. Desses que ficaram bem populares depois do Alta-Fidelidade. E que nunca realmente acontecem.
08/03/2008
Faculdade de Direito
Chego atrasado à aula e não tem nenhuma cadeira disponível. São mais de oitenta alunos enfurnados na sala Eugênio Lyra, que é meio que subsolo na faculdade de direito. Nenhum deles é estudante de direito, claro.
Dois ar-condicionados, um quebrado e outro ventando quase frio. As portas abertas, mas, como só tem entrada de ar por um lado, não circula vento. Quatro ventiladores, um parado e os outros três funcionando a umas quinze rotações por minuto. Quando a gente desce a escada já dá para sentir aquele bafo quente vindo de lá.
O professor de direito comercial deve ser mais novo que eu. Parecia até que sabia do que estava falando – ou pelo menos o que eu conseguia pescar, no fundão da sala, dividindo minha atenção com o joguinho (Zuma) no celular.
Eu cheguei umas nove e meia. Lá pelas dez ele começou a fazer chamada. Um camarada com a letra B no início do nome – acho que era Bruno – envergava uma camisa de Che Guevara.
- De todos os prêmios Nobel, só um foi para um comunista. E foi de literatura*! Nem foi de ciência! Sabe porque?
Ele mesmo completa, em sua solidíssima sapiência:
- Porque como é que uma pessoa, partindo de um princípio errado, mentiroso, que é o da igualdade, vai produzir alguma coisa certa?
Eu acho tão triste isso – essa gente que devia saber o quanto é importante o que se pensa e fala. Que deveria pensar um pouco mais antes de falar sobre política. Moleque mimado, que nunca viu o lado difícil da vida. Espero que se f*da bem retumbantemente qualquer dia, para aprender um pouco.
Eu podia ter dito, assim sem precisar pensar muito, que seria difícil a Suécia andar distribuindo prêmios para a cortina de ferro durante a guerra fria. E também que essa idéia de que a lei da selva é natural (até aí já tenho até minhas dúvidas, mas vá lá) e imutável, é, para dizer o mínimo, cinismo da pior qualidade.
Mas ao invés disso, respondi minha chamada, levantei e fui trabalhar. Não dá para ficar brigando com toda a ignorância que passa na nossa frente...
* Saramago
04/03/2008
Com um barulho desses.
Todas as luzes acesas, escorrendo pelo ralo consciências, economias, possibilidades.
Todas as portas abertas, aguardando ventos e advertências, e a sujeira da cidade.
Eu já vendi todas as minhas folgas, para sobreviver mais um mês.
E ando ouvindo que sou um problema para as pessoas.
Estou muito atolado no trabalho e na faculdade para isso. Estou muito atolado nisso para o trabalho e para a faculdade. Aula às sete, no Canela.
Durma-se com um barulho desses.
(E nem para relaxar no quarto tá dando...)
(Want to gamble, drink and whore...)
[]´s
03/03/2008
Foi assim...
Alguns analistas acreditam que a missão dele é conquistar vinte e quatro territórios. (Outros ponderam que pode ser derrotar os exércitos azuis.)Os caras da Colômbia entraram no Equador para atacar as FARC. O mangangão lá, do Equador - vá saber o nome -, não gostou nem um pouquinho da invasão e abriu o verbo.
Aí, o velho Chavéz, como era de se esperar, entrou de sola na parada. Botou os exércitos superequipados na fronteira. O Equatoriano também não mostrou arrependimento, passou o sarrafo na embaixada colombiana, mandou o diplomata para casa. A Venezuela fez a mesma coisa.
Uribe, com jeitinho de cachorro que cagou no sofá, aninhou o rabo entre as pernas e foi pedir desculpas na televisão para todo mundo ver.
Só que nem o equatoriano nem o venezuelano aliviaram a barra. Um já foi à TV dizer que não aceita as desculpas, o outro já foi falar em guerra na América do Sul.
A rede Globo, para não ficar quieta, disse que os Estados Unidos não vão se meter na jogada. Não entendi bem o porquê da Globo ter dito isso. Mas o bichão lá já tá cheio de problemas, em crise econômica, estagflação, e talvez tendo que amargar o descolamento, com os fluxos de capitais indo na direção oposta em plena crise econômica, coisa inédita nos últimos, sei lá, sessenta anos. Eu, se fosse os Isteites, não desafiava a família Marinho agora... Todo mundo sabe que é fria. Vá saber...
Agora tá todo mundo na expectativa. O que é que vai fazer o Brasil?
(Fato: qualquer coisa que faça, tá se metendo em confusão. Não tem jeito.)
Xô ir que tenho agora uma aula de ADM-A95: Relações Internacionais.