8 de jun de 2006

Era um dia meio morto. Dia assim, como um São João que você fica na capital. Greve dos rodoviários. O dia era assim quando se andava pela Orla e pelas ruas próximas. A Tancredo Neves e a Paralela estavam um inferno de carros. Me disseram que, sem ônibus, um tanto de gente "tira o carro da garagem", como se muita gente em Salvador andasse de lotação tendo veículo próprio. Acho que não, mas também não consegui explicação melhor para o engarrafamento no centro comercial da cidade.
Eu tava com a moto emprestada. Quatro horas da manhã tinha corrido com o carro, também emprestado, levando minha mãe no Hospital Salvador, com dor de cabeça forte. Só um susto. A médica explicou que era enxaqueca. Minha mãe tem passado uns tempos difíceis em termos psicológicos. Busquei Leila, trocando o carro pela moto, e deixei no hospital com ela. Fui trabalhar. Deixei o carro em casa para Carla. Dali a pouco Carla chegou e foi ficar com ela - Leila foi trabalhar.
Quando deu uma hora da tarde eu tava saindo para o almoço, aqui no Sumaré, e Carla me ligou. Aquela conversa de "não se assuste" que assusta logo.

- Dido, olha, fique tranqüilo que sua mãe está bem, mas é melhor você vir para cá. Saiu o resultado da tomografia. O que ela teve foi um

ANEURISMA.

Puta que pariu. A médica tinha me dito que era enxaqueca, e que ia fazer a tomografia "só por desencargo de consciência". Avisei no trabalho. Consegui chegar rápido, furando o engarrafamento com a moto. Ela não sabia o que era. Estranhou minha volta. Eu disfarcei dizendo que tinha sido não-me-lembro-o-quê. Ela acreditou. Eu ainda estava "pousando" na situação. Comecei a acionar os contatos, procurar o que fazer.
Eu chamo de tia. Tia Telma. É a esposa do meu avô, na verdade. Mãe de Tia Larissa (12 anos). Ela tinha contatos médicos no São Rafael, e deu-se conta, por algumas vias, que o melhor lugar para a situação seria lá. Não tinha UTI disponível, e mesmo com todos os contatos da família, não existia a possibilidade de disponibilizar alguma coisa. Conseguimos garantia da equipe de neurocirurgia de que ela seria atendida e operada. Ainda teria que se fazer uma angiografia antes da operação. A esta altura, tentávamos providenciar a transferência no Salvador, mas eles têm neurocirurgia lá, e não solicitariam a remoção. Alegavam risco do transporte - que teria que ser numa UTI móvel com médico. Tudo complicado. Surgiu uma vaga na semi-intensiva do São Rafael. O pessoal do plano de saúde não ajudava, argumentava o risco do transporte. Tinha vaga na UTI do Salvador, e equipe pronta. De várias maneiras tentaram demover-nos da idéia da transferência. A ambulância não saía sem que houvesse confirmação de que o hospital de destino receberia a paciente, tampouco sem o relatório médico com informação do que seria necessário, a ser enviado pelo hospital de origem. Nem sem o cheque, naturalmente, já que não seria coberto pelo seguro, por ser "por vontade da família". Tive que assinar um termo de responsabilidade de alta a pedido. O fax chegava na empresa da ambulância ilegível. Depois, quando dava tudo certo, o roteiro já estava pronto, com outros atendimentos, impedindo que buscassem minha mãe, e tínhamos que partir para uma nova ambulância. No final das contas três ambulâncias marcaram e desmarcaram conosco, com argumentos variados, uma até dizendo que nós desistimos, o que não aconteceu. Num último momento uma confirmou, e outra se disponibilizou. Cancelamos a que chegaria mais tarde, e a que chegaria mais cedo, depois, atrasaria horas. A esta altura vários parentes e amigos já estavam no hospital, ou já tinham passado por lá para dar uma força. Minha mãe estava consciente, conversando, com leve dor de cabeça. O risco aumentava a cada segundo que ela passava no P.A., insuficientemente equipado para o caso (de grande probabilidade) de algo mais acontecer. Passamos o dia nisso.Telefonando, recebendo parentes, dando notícias para o pessoal, nos revoltando com a palhaçada das UTIs móveis.
Dez e tanto da noite chegou a ambulância, trazendo uma paciente para o hospital. Logo que a colocaram no P.A. ela teve uma parada cardíaca (a paciente, não minha mãe). Uma senhora idosa. A médica, com essa insensibilidade que os médicos acabam criando, falou na frente de todo mundo, alto. "Fulana, vem aqui e traz doutor Beltrano, que a paciente parou e se ele não vier eu vou rasgar ela toda". A médica da ambulância foi ajudar, paciência. Neste caso, temos que entender. A velhinha morreu. O velhinho foi andando choroso em direção à saída do hospital. Para a gente era alguma coisa. Para eles, quinta-feira, acredito eu.
Onze e não me lembro o quê eles a colocavam na ambulância. Tia Telma foi junto. Eu levei o carro dela. Maurício, meu primo, foi também para me trazer de volta depois. O carro que estava comigo Carla dirigiu para minha casa, e foi dormir, que não havia mais muito o que se fazer, ou possibilidade de ver ou falar com minha mãe naquele dia.
Eu ainda demorei no hospital um pouco. Acompanhei a entrada dela, preenchi papéis, visitei um priminho que hoje já está em São Paulo, numa difícil, mas que vai sair dessa. Voltei para casa quatro e pouco da madrugada. Dormi.
Acordei sexta nove da manhã, horário que já pretendia estar no hospital. Era o horário previsto da angiografia. Leila tinha "aproveitado o momento propício" para mexer no meu celular e arranjar picuinha. Trancou a porta do quarto, fez barraco. Tive que arrombar a porta. Se desse ibope para ela, teria passado o dia lá. Mais uma vez a moto me valeu para chegar rápido.
Chegando, recebi o telefonema da amiga médica de Tia Telma, para que descesse para falar com minha mãe antes da cirurgia. A angiografia tinha confirmado não um, mas dois aneurismas. Antes de entrar ela me perguntou se eu estava bem emocionalmente, seguro. Se eu não ia desabar na frente da minha mãe. Não ia. Não desabei. Ela falava embolado, por causa da anestesia, com a médica.

- E aí, doutora, saiu o resultado?
- Saiu, Lessi.
- Tudo certo, doutora?
- Tudo certo, minha linda.
- Tudo certo, então! Descobriu que foi engano, que não era aneurisma...

Quase desabei.

- Ô, mãe...

Nisso a médica chegou junto, com carinho, e explicou que foi, sim, e que ela ia operar. Eu, do lado, segurava na mão e dizia que tudo ia dar certo. Ao que ela respondia que sim, que tudo ia dar certo. Ela já estava com uns tubos, eu acho, e com um aspecto bem frágil. Cara de paciente de UTI, mesmo.
A médica disse que tentou ligar pro celular de tia Telma sem sucesso, afim de que o resto da família descesse para vê-la. Eu saí correndo para procurá-los, antes que levassem minha mãe para a cirurgia, que seria feita imediatamente. Ainda não tinha visto ninguém - fui chegando no hospital e recebendo a ligação. No percurso até o saguão, que pareceu durar uma eternidade, mesmo tendo usado as escadas, desabei no choro. A imagem dela e a possibilidade de alguma coisa dar errado, e o medo dela com o "descobriu que não era aneurisma", e a força dela em dizer que tava tudo bem...
Achei o pessoal. Pensaram que eu estava descontrolado, por causa da pressa que eu dava em eles descerem, junto com o choro. Consegui que eles apressassem o passo. Não desci de novo. Não ia conseguir me equilibrar ainda. Fui no banheiro lavar o rosto e subi para a ante-sala da cirurgia. Não sem ouvir uns "Ô, não chore não..." inúteis.
O neurocirurgião ainda conversou conosco, nos colocou a par da pequena probabilidade de não sobrevivência, bem como da grande chance de seqüelas. Ainda disse que estava de férias, e foi operar a pedido da amiga médica de tia Telma.
Depois disso só pudemos esperar longas três horas e meia de cirurgia, e o mesmo doutor veio conversar conosco. A operação havia sido um sucesso. A sensação de alívio, a diminuição da pressão, é parecida com um pré-desmaio.
Ainda assim, ele explicou a incidência de 60% a 70% de vaso-espasmo no pós-operatório dessas cirurgias, o tratamento com a angioplastia, se fosse o caso. Não era ainda motivo para alívio final.
De lá para cá tem sido visitas diárias na UTI. No começo bem chocantes, com ela falando embolado, se rebelando para sair dos aparelhos, amarrada, com dreno de sangue na cabeça, entubada... Mas as notícias foram sempre boas, de melhoras, nenhuma complicação (intercorrência na linguagem que ouvimos nos boletins médicos), e, com o passar dos dias, até risadas. Ela teve algumas confusõezinhas, não lembrava exatamente o que aconteceu, misturava sonhos com realidade;

- E aqui, mãe? Quais são as novidades?
- Hehehe... Até tem, filho. A novidade aqui é que ontem à noite eu acordei convencida de que eu tinha saído, de novo. Fiquei tentando me lembrar com quem tinha sido, onde eu tinha ido, e tal.
- E aí, mãe?
- Aí a enfermeira veio me falar que eu estou numa UTI, e que as pessoas não ficam saindo da UTI para resolver coisas na rua e voltando.
- Lógico...
- É. Me pareceu bem lógico quando ela argumentou isso. Mas antes eu estava discutindo que tinha saído... hehehe.

Já passou. Está ótima, provável que saia da UTI em breve. Ainda passa um tempo no hospital. Semi-intensiva, quarto... Mas isso é o de menos. Ontem foi aniversário dela, e o hospital liberou que subissem mais visitantes. Hoje dei uma faltada, fiquei no trabalho, que a situação aqui já tava ficando chata. Amanhã vou ver se vou de onze às doze.
E os outros problemas, bem como tudo o mais, em perspectiva, praticamente sumiram esses dias. Pausa.
Ê, susto!

[]´s
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Houve ainda a informação que, durante o procedimento, identificaram um terceiro aneurisma. O que nos deu a sensação de que compensou tê-la levado para a melhor equipe de médicos.