Escrevendo - Juros.
Novembro de 2003. Os termômetros de Jequié marcam quarenta e cinco graus. Sem vento, ou qualquer indício de brisa, por mais leve que fosse. Só vontade.
O negociador, vindo de Salvador, entra na sede administrativa do industrial em Jequié. Através camisa social branca vê-se a cor da pele por todo o corpo - o suor empapa o pano, pinga pelo queixo e pelas orelhas, pelas sobrancelhas no olho, molha a parte de cima da calça jeans, e aparece na parte junto às panturrilhas, que, como todo o resto do corpo, parecem se desfazer em líqüido.
Ao abrir a porta do escritório, recebe uma lufada de ar-condicionado a vinte graus, e enquanto sente que o espirro está chegando, tenta dar um sorriso simpático.
O dono da empresa vem em sua direção.
- Bom dia! Gilmar, não é isso? Estava te aguardando!
Ele estende a mão, vira o rosto para o lado, e começa a espirrar. Seis espirros, um atrás do outro. Passa a manga a camisa no nariz e sente o frio molhado do pano no rosto, e começa uma demorada série de mais cinco espirros, antes de conseguir falar com o interlocutor.
- Opa. Vai desculpando. É que eu vim andando de lá da agência e suei um pouco...
- Tudo bem. E então, como é que estamos?
- Pois é. O senhor é o senhor Leonardo Bittencourt, não é isso?
- Exato.
- Tem um banheiro aqui?
- Logo ali.
- Licença.
Ele vai no banheiro, lava o rosto e as mãos demoradamente e enxuga-os com vários papéis-toalha. Na volta, percebe que o outro está navegando em um site pornográfico, clicando em várias fotos, espalhado na cadeira e com os pés em cima da mesa.
- Rapaz! Boa moça, hein?
- Boa é pouco - sorri .
- Então, seu Leonardo... eu vim aqui para a gente quitar aquela dívida do senhor! O banco está oferecendo uma condição especial, até doze de dezembro, e eu trouxe as planilhas aqui para te mostrar.
- Ô, meu velho. Eu tô precisando mesmo resolver isso!
- Então a hora é agora, meu amigo!
Saca as planilhas.
- Olha só. O contrato foi feito para trinta e seis meses, e só foram pagos os primeiros quatro. Sua dívida vencida, no valor de face, dava R$ 32.447,46.
- Certo...
- Mas a última prestação já venceu há dois anos. Aplicando os índices contratuais, essa dívida iria hoje para R$ 96.937,88...
- Isso tudo?
- É que o empréstimo que o senhor pegou é da linha comercial sem subsídio nenhum. Aqui corre uns jurozinhos razoáveis...
- E como é que fica com essas condições que você me disse?
- Pois é. A gente dispensa isso aqui, recalcula pela TR pura e cobra só a correção monetrária e o remuneratório. Mesmo assim, com abatimento. Com R$ 60.000,00 você paga.
- Toda? Saem as restrições cadastrais e desaliena a garantia? Tudo?
- Tudo.
- Baixe para cinqüenta que a gente fecha!
- Ô, rapaz. Não posso. Esse valor é só por conta da ação especial - senão nem por oitenta mil fechava. Mas liqüida, o senhor pode continuar trabalhando com o banco, tira as restrições, e tudo na hora!
- Sai em quanto tempo a restrição?
- É "D" mais um. De um dia pro outro.
- Vou levantar a grana e segunda-feira eu falo contigo. Ainda vai estar aqui na agência?
- Não. Tô em Salvador já. Mas cê liga para esse telefone que de lá mesmo eu te atendo e a gente fecha. Na agência daqui.
- Gilmar, muito obrigado! Segunda de manhã eu te ligo!
- Óquei! Estou aguardando!
Novembro de 2003.
O calor de Jequié é de quarenta e quatro graus. O bancário olha o nome no relatório do próximo cliente a visitar - Leonardo Hermann Bittencourt. Lembra-se das ladeiras até a empresa e resolve pegar um moto-táxi.
Encontra-o na ante-sala do escritório, rindo, conversando com a com a linda secretária.
- Paulo? Você nunca me ligou, rapaz?
- Você é o gerente do banco, não é isso?
- Não sou gerente, não. Trabalho na área de recuperação de créditos. A gente tá com outras condições para pagamento. Quer dar uma olhada?
- Ô, rapaz! Ano passado não consegui levantar a grana, quando tinha jeito, conversei aqui na agência e as condições diferenciadas já tinham acabado... Mas vamos direto ao ponto: quanto ficaria hoje?
- Olha, sua dívida corrigida já estaria beirando os cento e trinta contos... mas esse ano, o banco está renovando as carteiras e recebe pelo valor de face.
- Quanto era mesmo?
- R$ 32.447,46.
- O ano foi ruim para o meu setor, meu velho. Tá realmente barato mas eu não tenho como pagar.
- Certo. Se ajeitar, dá um toque pra gente.
- Obrigado.
Novembro de 2004.
- Seu Paulo... o banco parou de trabalhar com aquela linha de crédito. O senhor pode quitar aquela dívida por quinze mil!
- Não tenho. Mas faz o seguinte...
- Diga?
- Volta ano que vem e traz troco para uma nota de cinqüenta! - disse com ironia.
Ao sair da sala, Gilmar se detém na secretária.
- Menina, eu acho que te vi anteontem. Você saiu de noite?
- Saí...
- Tava aonde?
- Fui tomar uma cervejinha.
- Deve ter sido você mesmo...
- Você estava num bar?
- É.
- Qual?
- Desculpe... Qual é o seu nome mesmo? A gente já está conversando há um minuto e nem se apresentou...
- Meu nome é Iana.
- Prazer, eu sou...
- Gilmar! Eu lembro.
- Lembra meu nome? Que memória boa, hein?
- Sou uma boa secretária!
- E hoje, Iana? Você acha que vai sair de noite?
- Você tá me cantando?
- Hã?
- Eu tenho namorado!
- Mas eu só queria...
- Dá licença, por favor, que eu tenho muito o que fazer!
- Desculpe.
Abriu a porta, que era escurecida com filme, ofuscou-se com o clarão das duas da tarde jequiéense. Saiu, sentiu o bafo do dia, e começou a resmungar.
- Cidade de merda. Puta que pariu. Odeio Jequié. Eu odeio Jequié.
Seguiu seu rumo a pé, enquanto olhava na lista a próxima visita. Ainda era quinta - penúltimo dia de Jequié. Segunda, Vitória da Conquista, e ele pensava "graças a Deus".
[]´s
Novembro de 2003. Os termômetros de Jequié marcam quarenta e cinco graus. Sem vento, ou qualquer indício de brisa, por mais leve que fosse. Só vontade.
O negociador, vindo de Salvador, entra na sede administrativa do industrial em Jequié. Através camisa social branca vê-se a cor da pele por todo o corpo - o suor empapa o pano, pinga pelo queixo e pelas orelhas, pelas sobrancelhas no olho, molha a parte de cima da calça jeans, e aparece na parte junto às panturrilhas, que, como todo o resto do corpo, parecem se desfazer em líqüido.
Ao abrir a porta do escritório, recebe uma lufada de ar-condicionado a vinte graus, e enquanto sente que o espirro está chegando, tenta dar um sorriso simpático.
O dono da empresa vem em sua direção.
- Bom dia! Gilmar, não é isso? Estava te aguardando!
Ele estende a mão, vira o rosto para o lado, e começa a espirrar. Seis espirros, um atrás do outro. Passa a manga a camisa no nariz e sente o frio molhado do pano no rosto, e começa uma demorada série de mais cinco espirros, antes de conseguir falar com o interlocutor.
- Opa. Vai desculpando. É que eu vim andando de lá da agência e suei um pouco...
- Tudo bem. E então, como é que estamos?
- Pois é. O senhor é o senhor Leonardo Bittencourt, não é isso?
- Exato.
- Tem um banheiro aqui?
- Logo ali.
- Licença.
Ele vai no banheiro, lava o rosto e as mãos demoradamente e enxuga-os com vários papéis-toalha. Na volta, percebe que o outro está navegando em um site pornográfico, clicando em várias fotos, espalhado na cadeira e com os pés em cima da mesa.
- Rapaz! Boa moça, hein?
- Boa é pouco - sorri .
- Então, seu Leonardo... eu vim aqui para a gente quitar aquela dívida do senhor! O banco está oferecendo uma condição especial, até doze de dezembro, e eu trouxe as planilhas aqui para te mostrar.
- Ô, meu velho. Eu tô precisando mesmo resolver isso!
- Então a hora é agora, meu amigo!
Saca as planilhas.
- Olha só. O contrato foi feito para trinta e seis meses, e só foram pagos os primeiros quatro. Sua dívida vencida, no valor de face, dava R$ 32.447,46.
- Certo...
- Mas a última prestação já venceu há dois anos. Aplicando os índices contratuais, essa dívida iria hoje para R$ 96.937,88...
- Isso tudo?
- É que o empréstimo que o senhor pegou é da linha comercial sem subsídio nenhum. Aqui corre uns jurozinhos razoáveis...
- E como é que fica com essas condições que você me disse?
- Pois é. A gente dispensa isso aqui, recalcula pela TR pura e cobra só a correção monetrária e o remuneratório. Mesmo assim, com abatimento. Com R$ 60.000,00 você paga.
- Toda? Saem as restrições cadastrais e desaliena a garantia? Tudo?
- Tudo.
- Baixe para cinqüenta que a gente fecha!
- Ô, rapaz. Não posso. Esse valor é só por conta da ação especial - senão nem por oitenta mil fechava. Mas liqüida, o senhor pode continuar trabalhando com o banco, tira as restrições, e tudo na hora!
- Sai em quanto tempo a restrição?
- É "D" mais um. De um dia pro outro.
- Vou levantar a grana e segunda-feira eu falo contigo. Ainda vai estar aqui na agência?
- Não. Tô em Salvador já. Mas cê liga para esse telefone que de lá mesmo eu te atendo e a gente fecha. Na agência daqui.
- Gilmar, muito obrigado! Segunda de manhã eu te ligo!
- Óquei! Estou aguardando!
Novembro de 2003.
O calor de Jequié é de quarenta e quatro graus. O bancário olha o nome no relatório do próximo cliente a visitar - Leonardo Hermann Bittencourt. Lembra-se das ladeiras até a empresa e resolve pegar um moto-táxi.
Encontra-o na ante-sala do escritório, rindo, conversando com a com a linda secretária.
- Paulo? Você nunca me ligou, rapaz?
- Você é o gerente do banco, não é isso?
- Não sou gerente, não. Trabalho na área de recuperação de créditos. A gente tá com outras condições para pagamento. Quer dar uma olhada?
- Ô, rapaz! Ano passado não consegui levantar a grana, quando tinha jeito, conversei aqui na agência e as condições diferenciadas já tinham acabado... Mas vamos direto ao ponto: quanto ficaria hoje?
- Olha, sua dívida corrigida já estaria beirando os cento e trinta contos... mas esse ano, o banco está renovando as carteiras e recebe pelo valor de face.
- Quanto era mesmo?
- R$ 32.447,46.
- O ano foi ruim para o meu setor, meu velho. Tá realmente barato mas eu não tenho como pagar.
- Certo. Se ajeitar, dá um toque pra gente.
- Obrigado.
Novembro de 2004.
- Seu Paulo... o banco parou de trabalhar com aquela linha de crédito. O senhor pode quitar aquela dívida por quinze mil!
- Não tenho. Mas faz o seguinte...
- Diga?
- Volta ano que vem e traz troco para uma nota de cinqüenta! - disse com ironia.
Ao sair da sala, Gilmar se detém na secretária.
- Menina, eu acho que te vi anteontem. Você saiu de noite?
- Saí...
- Tava aonde?
- Fui tomar uma cervejinha.
- Deve ter sido você mesmo...
- Você estava num bar?
- É.
- Qual?
- Desculpe... Qual é o seu nome mesmo? A gente já está conversando há um minuto e nem se apresentou...
- Meu nome é Iana.
- Prazer, eu sou...
- Gilmar! Eu lembro.
- Lembra meu nome? Que memória boa, hein?
- Sou uma boa secretária!
- E hoje, Iana? Você acha que vai sair de noite?
- Você tá me cantando?
- Hã?
- Eu tenho namorado!
- Mas eu só queria...
- Dá licença, por favor, que eu tenho muito o que fazer!
- Desculpe.
Abriu a porta, que era escurecida com filme, ofuscou-se com o clarão das duas da tarde jequiéense. Saiu, sentiu o bafo do dia, e começou a resmungar.
- Cidade de merda. Puta que pariu. Odeio Jequié. Eu odeio Jequié.
Seguiu seu rumo a pé, enquanto olhava na lista a próxima visita. Ainda era quinta - penúltimo dia de Jequié. Segunda, Vitória da Conquista, e ele pensava "graças a Deus".
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