29/01/2012

Folha de Fevereiro

Crimes no carnaval!
Mulher de 26 anos é presa por abusar sexualmente de criança de 16.

O crime aconteceu no circuito Barra-Ondina, durante o segundo dia de carnaval em Salvador. Paula Andrade Carvalho, enfermeira, foi encontrada pela polícia militar beijando um menor de idade nas proximidades do Morro do Gato. O flagrante ocorreu após denúncia anônima. Embora Paula tenha argumentado não saber a idade do jovem, a polícia diz que o alegado desconhecimento não a isenta do ilícito, e que era sua responsabilidade solicitar documento do pretendente antes de praticar quaisquer atos libidinosos.
Paula está presa em um dos contêineres utilizados pela PM durante o carnaval, e deve ser julgada a partir da segunda-feira após o fim dos festejos.

Adolescente de 16 anos é retido após ser identificado urinando na calçada.

O jovem M.P.F., de 16 anos, foi encaminhado à FEBEM-Salvador após ser retido pela polícia ao satisfazer suas necessidades fisiológicas em público, na calçada da esquina do Beco das Quebranças, durante o carnaval. O rapaz argumenta que não havia banheiros químicos disponíveis por perto, e que, com a passagem iminente do bloco Camaleão ele não seria capaz de se movimentar para outra área ou sequer de acessar o canto da calçada, tentando dar alguma discrição ao crime praticado.
Segundo o juíz de menor João Mourão, nenhum dos argumentos do jovem justificam o crime:
- É um atentado ao pudor e contra a coisa pública. Quem não consegue segurar a bexiga durante a passagem de um bloco, que não vá ao carnaval!

Marginal identificado no beco do Othon portando drogas.

O contador Jaime Nicácio foi preso na rua sem saída conhecida como "beco do Othon" ao portar drogas em pleno carnaval. A declaração que Jaime fez em sua defesa foi o que mais impressionou a polícia e a sociedade:
- Era só um baseado!
A polícia chegou até Jaime após, para o azar do meliante, a mudança do vento levar o cheiro da substância até o posto polícial 42, próximo ao ocorrido. Ao perceber a aproximação dos policiais, Jaime tentou evadir-se saltando à praia de uma altura aproximada de 9 metros, o que lhe custou uma fratura no fêmur. Jaime está sendo atendido no hospital Roberto Santos, e de lá deve ser encaminhado a um dos contêineres da Polícia Militar.

Grupo de mulheres investigado por comportamento indecente.

Um grupo de três mulheres, na faixa dos vinte anos, está sendo investigado pela polícia por comportamento indecente durante o carnaval. Segundo o tentente Evilásio Prata, a polícia tem acompanhado as ações destas mulheres há três dias, desde a sexta-feira de carnaval:
- Elas utilizam vestes inadequadas, com teor altamente provocante, e chegam a beijar até dez homens em um só dia, cada. Há, inclusive, a suspeita de que uma delas tenha beijado até uma outra mulher!
Embora não haja ainda a certeza de que tenham cometido crime, pelo caráter subjetivo do julgamento, as três já foram fichadas e seu comportamento está sendo avaliado por uma junta legal composta por três juízes criminais. Evilásio Prata explica a expectativa quanto à avaliação:
- Os nomes das suspeitas estão sendo mantidos em segredo de justiça. Acredito que não vá haver dúvidas quanto à conduta ilegal. As atitudes delas são uma afronta à moral e aos bons costumes da nossa sociedade.

Homem é flagrado fornecendo bebida alcoólica a irmão menor de idade.

O bancário Mauro de Paes Dias foi flagrado ao dar ao irmão, S.P.D., dinheiro para que o mesmo comprasse duas latas de cerveja pequenas, conhecidas no carnaval de Salvador pela indecorosa alcunha de "piriguetes". O problema é que Mauro, de 31 anos, deveria zelar pelo irmão, de apenas 15 anos, ao invés de incentivá-lo ao ilícito e à perda de controle proporcionada pelo álcool.
Mauro tentou se explicar a polícia, inicialmente, dizendo que orientou o irmão a comprar refrigerante, mas depois confessou o crime.
- Foi para cerveja, mesmo. Não acho nada demais. A molecada começa a tomar uma ou duas cervejinhas nessa idade, na minha família. Temos cuidado para ter moderação. Além de tudo, é carnaval!
A delegada responsável, Marjorie Peixoto, explicou que não há jusificativa para o fato:
- Adultos devem consumir álcool com moderação. Crianças não devem consumir álcool de forma alguma. É ilegal e prejudicial.
Mauro foi encaminhado diretamente a um contêiner da Polícia Militar, onde deve aguardar julgamento para a semana após o carnaval. O menor foi encaminhado para desintoxicação no Hospital Geral do Estado, de onde deve ser liberado com a guarda da mãe.
A família de Mauro deve ser investigada por conta de sua declaração.

24/11/2011

Dores Humanas

Linger on...
Marisa Monte interpreta músicas para duas das três maiores dores que a condição humana nos proporciona. Até aí nada demais - mas eu gosto especialmente de ambas porque elas demonstram a força nas nossas grandes fraquezas.
Para a dor de perder um amor: "Se eu não tenho o meu amor, eu tenho a minha dor". Para a consciência da morte: "Eu posso decidir se vivo ou morro, porque sou vivo, vivo prá cachorro" - que é de Gil e ele também interpreta de forma genial.
Falta a da perda do ente querido. Talvez porque não haja força possível.

18/11/2011

Justificativa

Alguns termos viram pecado de repente. Justificativa é um deles. Aliás, não só o termo, mas todo o sentido dele junto. Está se justificando, ou seja, errou e está procurando dizer que não tem culpa.
Mas não é necessariamente assim. Todo mundo erra.
Óbvio que quando entro nessa reflexão, acabo pensando em mim, em meus próprios erros e justificativas. Mas me provocou a reflexão uma justificativa de outra pessoa, e a reação à mesma.
Isso é dessa cultura gerencial, capitalista, de resultados, de imagem. Se justificar é ruim porque não se pode mostrar fraqueza - somos imbatíveis, produtivos, barbeados, pontuais. Mas quem pode atirar a primeira pedra?
Erra-se na melhor das intenções, nas piores condições. Todos, uma vez ou outra, somos personagens de catástrofes, comédias de erros inimagináveis.
Não assumir a própria culpa chega a ser pior, mas não aceitar uma justa justificativa - coisa tão comum hoje em dia - torna nosso mundo um pouco pior.

07/11/2011

Nem tudo é ruim nas novelas...

Ellen Roche é um exemplo das coisas boas nas novelas...

Não gosto de novela. Agora, mesmo, estou no computador e na televisão à minha frente passa uma novela, que não sei o nome, e uma ou outra cena me chamam a atenção.
Eu pergunto para Leila - "esse cara aí é do bem, não é"? Ou "o pior é que ela está certa de tratar ele assim, ele é do mal, né"?
Isso é uma coisa boa que as novelas têm. Para compensar a pobreza da trama, eles fazem personagens mais pobres ainda - e nós, fiéis telespectadores, podemos nos divertir definindo quem é que é "do bem" e quem é que é "do mal". E, consecutivamente, escolhendo um lado para torcer.
Eu torço para Ellen Roche, Camila Pitanga e Sabrina Sato!

03/11/2011

Me ajuda?
Passou a mão na cabeça já imaginando o problema.

- Boa noite.
- Boa noite.
- Carteira de motorista e documento do carro, por favor.
- Seu guarda... Estou sem os documentos. Eu vim só comprar pão, rapidinho, e não trouxe nada...

Ela olhava com aqueles olhos de cachorro pidão. Era uma mulher pequena, bonita, jovem. Ele fez uma expressão de "sem jeito".

- Mas... A senhora teria alguém para telefonar que possa trazer os documentos aqui?
- Ter, até tenho. Mas também não trouxe o telefone...

Enquanto ela falava no telefone do policial, emprestado, ele tentava disfarçar para que os superiores não percebessem a situação. Foi ao fundo do carro, pediu para ela ligar as luzes traseiras.

- Senhora, a luz traseira esquerda está queimada.
- Ah, é. Queimou semana passada, ainda não tive tempo de consertar. Tem problema, né?
- Mas, senhora...
- ...
- Conseguiu pedir para alguém trazer o documento?
- Deixei recado com a empregada. Meu pai deve retornar já, já.

Ela entrega o telefone para ele. Ele tira o telefone do silencioso imaginando atender o pai da menina.

- A senhora pode abrir o porta-malas, por favor?
- Eu não sei como abre, não. O senhor pode abrir...
- Vá embora...
- Hein?
- A senhora está liberada. Pode ir.
- Olha... Obrigado, viu?

Ela saiu com vergonha. Ele estava pensando em, ao menos, tentar chamá-la para sair, com o telefone que ficou na lista de chamadas. Mas não sabia o nome.

13/09/2011

Meu carro, pô...

Pobre é uma tristeza...
Dei entrada no hotel bacana. Entreguei a chave do carro para o camarada que fica à porta para estacioná-lo. Tomei café da manhã calmamente. Quando subi para o quarto, alguém já estava atento para me acompanhar no elevador carregando minhas bagagens.
Me atrapalhei com a chave-cartão, dispensei educadamente as explicações sobre acionamento das luzes e eletrônicos, ajeitei rapidamente minhas coisas, fui para o treinamento.
E até o meio da tarde não conseguia deixar de pensar na chave do carro, que eles nunca tinham me devolvido. Imagens mentais me atormentavam - alguém passando com meu carro por Taguatinga, ou o carro parado junto a um desses botecos da Asa Norte, ou batendo num Corsa Sedã.
Durante um coffee-break resolvi deixar o orgulho de lado. Presumia que estava fazendo besteira, mas mesmo assim perguntei discretamente a uma colega que me inspirava confiança.

- Vem cá... Eles não devolvem mesmo a chave do carro?

Passei atestado de tabaréu, claro. Ela elegantemente me tranqüilizou. Ao menos pude prestar mais atenção às aulas, doravante.

11/09/2011

"De verdade"

Era sobre o cara que a paquerou. A uma dada altura da conversa, ela descreve o cara como "gordinho". Eu, querendo dirimir minha preocupação, pergunto o quanto "gordinho" ele era.

- Mas por isso não...
- Não. Não gosto de gordinho.
- Gosta sim.
- Não gosto, não!
- "Gordinho" quanto, então?
- Gordinho. Não era goooordo, não, mas era gordinho.
- "Gordinho" que nem eu?
- Não, ô! Ele era "gordinho" de verdade!

Falou de um jeito despreocupado e sincero. E eu fico feliz quando ouço uma dessas - não é a primeira vez. Quer dizer que, apesar de eu estar reconhecidamente precisando emagrecer - estou por iniciar um regime assim que acabar os shakes que ainda tem aqui em casa -, não chego a ser ainda um "gordinho de verdade"! Seja lá qual for minha classificação, é abaixo desta.

[]´s

10/09/2011

Um querido, esse menino!

Gatinhas de Hitler!
Sei que isso de colocar Hitler no argumento é coisa velha - de bem antes de eu nascer. "Hitler também pensava assim!", e o argumento opositor está ferido de morte. Mas não é bem o contexto que vou usar. De qualquer forma, não achei exemplo melhor.
É sobre essa expressão nova que se popularizou: "Fulano(a) é muito querido". "Querido" virou qualidade, elogio, bênção. Quer dizer, ao ser querido, pela lógica, é uma pessoa que tem valor. Mesmo que só seja querido, no mundo inteiro, pelo interlocutor que está te mandando esta pérola.
Hitler era muito querido. E era mesmo. No caso dele, não só por Eva Braun, ou por meia dúzia - por uma parcela enorme da Alemanha.
Um doce de pessoa...

15/08/2011

O frio dentro de casa

BSB 15% UR
Fazia frio dentro de casa, e um sol forte se espalha pelos espaços amplos de Brasília.
Sol de agosto. Grama morta. Árvores em galhos, restos de folhas velhas no chão.
Poeira de barro fina voando, recobrindo os carros, sujando os sapatos.
A natureza em tons de marrom e bege. Ondas de calor emanando do asfalto. Nenhuma nuvem, sombra, sorriso.
Amizades secas, olhares tortos, bocas partidas.
A pulsação arrastada e os calafrios.
A vontade triste de outro dia ou lugar.

07/08/2011

Consertar Fusca

Get your motor running!
Passei mais de um mês sem ligar o Fusca. Hoje de manhã, quando fui vê-lo, já desconfiava que ele não iria pegar.
Motor de arranque ok, bateria ok, mas nada de pegar. Já tinha visto esse filme antes. A gasolina velha entope os tubos, algo assim. Tentei como pude, até buscar um mecânico. Fiquei olhando decidido a entender o que ele ia fazer, e da próxima vez economizar o "guaraná".
A primeira coisa que ele fez foi tirar e raspar o platinado. Porra! Essa eu sabia! Não lembrei de tentar. Vacilo. Deu uma limpada no encaixe, também. Eu acompanhando de olho. Ele tirou a mangueira que joga a gasolina do tanque para o radiador. Eu tinha tirado antes de buscá-lo, mas não soube direito o que fazer. Apertei como quem quer tirar milk-shake de um canudo. Não me pareceu que ia dar certo, e não deu. Ele chupou a gasolina do tanque, jogou numa tampa de amaciante que tinha arranjado no chão.
Eu, de cara, estava pensando na gasolina na boca. Matar, não mata - já vi tanta gente fazendo isso. Se todo mundo faz não sou eu que não posso fazer. É só tomar cuidado para não engolir.
Só que depois lembrei que eu ia ter que botar a boca na mesma ponta de tubo que aquele mecânico tinha acabado de chupar.
Aí não.
Ele usou aquela gasolina para jogar direto no carburador. O carro pegou de primeira. Eu não sei se o fato de ele ter puxado desentupiu alguma coisa. Da próxima vez vou testar. Raspo o platinado, limpo o encaixe, compro gasolina no posto e jogo no carburador. Sem chupar a mangueira do tanque. Se der, deu.

30/06/2011

Neofeminismo

No primeiro quartil do século passado, revolução industrial, migração para as cidades, necessidade de força de trabalho, as mulheres começaram a quebrar as amarras do patriarcalismo antigo, duro e injusto. Daí vem o sufrágio universal, a isonomia de direitos trabalhistas, a capacidade civil plena e daí por diante.
Socialmente é uma evolução gradual, claro. Mas culturalmente isso fluiu por duas vertentes bem marcadas. A que parece ter se estabelecido primeiro foi a cultura onde, apesar dos direitos iguais, homens e mulheres tinham valores diferentes a defender na sociedade.
As mulheres, nesse contexto, são encorajadas a trabalhar, a votar, a dividir as decisões, a ter objetivos e individualidade, sim. Mas tem alguns direitos e deveres tácitos diferentes dos masculinos.
Nesse contexto, o homem é visto como o principal responsável por prover o lar, mesmo que isso signifique trabalhar como um desesperado. Ele é o mais cobrado por ser defensor, forte, troca o pneu, tira satisfação, resolve as coisas complicadas da instalação do chuveiro à ação na justiça. É cavalheiro, abre a porta do carro, paga a conta do restaurante, incentiva a mulher, é atencioso, mima-a com presentes, é cobrado por seu sucesso, é cobrado por sua constância. Tem, naturalmente, seus benefícios: costuma ter a última palavra em assuntos sérios, tem o direito de fazer uma farrinha com os amigos até mais tarde, tem o direito à barriguinha de chope, é perdoado por um deslize ou outro...
A mulher, por sua vez, é a musa inspiradora. Não é cobrada se ganhar menos (aliás, quando o homem ganha menos o relacionamento muitas vezes acaba), é tratada como princesa, ganha presentes, faz cara de meiguinha na hora da conta, tem direito a suas inconstâncias emocionais, a algumas futilidades, a ter assistência nas coisas complicadas (como a instalação do chuveiro), não carrega caixa na mudança, não trabalha quinze horas por dia para botar dinheiro na casa e ser chamada de ausente. Por outro lado tem seus deveres, de ser compreensiva, magnânima para perdoar um ou outro tropeço do cara, de cuidar bem do respectivo, de usar ao menos umazinha daquelas quinze horas para manter a barriguinha em níveis aceitáveis.
E aí teve o feminismo brabo, de queimar sutiã, da liberação sexual, das mulheres pegando geral por aí (pegando inclusive mulher pra caramba, até), de não depilar as axilas (tem umas xiitas que fazem até hoje), de dividir a conta no bar, da mulher dobrada embaixo do carro trocando pneu, eventualmente um musculozinho considerável no braço, independência ou morte, trabalhar pra caralho, não ser princesa coisa nenhuma, tênis ao invés de salto alto, ser constante, encarar as bombas, etc. No fundo no fundo, é basicamente o papel do homem na cultura que dividia os valores. Os namorados/maridos dessas mulheres tem as vantagens e desvantagens de conviver desta forma, dividindo contas, responsabilidades, deslizes. E tem lá, sim, os que escolhem isso.
Ambas as culturas tem suas vantagens e desvantagens para ambos os lados e, por isso, coexistem hoje. Sobrevivem com suas variações, seus altos e baixos.
Mas, conscientemente ou não, muitas mulheres hoje são neofeministas - feministas na hora certa. Elas simplesmente querem a parte boa dos dois lados. Usam seus saltinhos, são princesinhas, sorriem para o tempo na hora da conta, acordam sem pedir desculpa depois dos calandús, gritam "Amor, resolve isso aqui!" na maior naturalidade diante do pneu, do chuveiro, do telemarketing da NET, esperam (e cobram) presentes bacanas, viagens legais, salas bem decoradas... e querem ir para as farras com tanta ou mais freqüência que os caras! Ter uma barriguinha perdoada, dar a última palavra, dar uma puladinha de cerca, até, afinal "os direitos são iguais".
Na hora de carregar caixa, pagar fatura, ser provedor, trabalhar catorze horas, ouvir calandú, instalar chuveiro, não se fala em isonomia. A igualdade é só onde convém.

A sério? A mulher tem que se resolver primeiro, nosce te ipsum, e se posicionar claramente nesses aspectos e contextos. Tem sempre uma sapatilha para um pé cansado. Mas primeiro vejamos se a forma tá certa.

23/06/2011

Um tipo diferente de silêncio

Tripulação, preparar para o pouso.
Depois de um tempo morando no caminho do aeroporto, os aviões deixaram de me incomodar. Aqui eles passam baixo e o barulho é grande.
Mas não acordam, não atrapalham de dormir, sufocam todos os outros sons e são como um tipo diferente de silêncio.
Também parecem despertar um sentimento de que "está tudo bem" - os aviões continuam passando, seguindo seu caminho, as coisas lá fora continuam como sempre.

22/06/2011

Uma música no rádio

Sentimentos mal resolvidos em algum canto. Toca uma música no rádio quando estou sozinho no carro. A música é de noventa e nove, e eu provavelmente já ouvi umas mil vezes. Mas dessa vez ouvi de verdade.
Todo mundo é assim, ou eu sou chato, mesmo?

20/06/2011

Workaholic

Fim de semana de novo?
Avalio que qualquer alguém acaba se tornando um workaholic quando o trabalho é o único departamento da sua vida que em uma boa medida está dando certo.

06/06/2011

Composição

O centro do universo.
A Roda do Chopp fica a uns dois quilômetros da minha casa. É um dos points de paquera do DF. Meninas novas, bonitas, vestidas de cowboy, e até onde eu sei bem dispostas. Nunca fui lá.
Daqui de casa, especialmente do meu quarto, dá para ouvir o som até altas horas da noite, e eu ligo o ventilador na esperança de que o barulho dele disfarce o sertanejo universitário que vem de lá.
O som que chega aqui é bem baixo. Não incomoda senão um ínsone inveterado como eu.
Amanhã tenho que acordar cedo, fazer barba pela quarta vez em nove dias, usar gravata, ser "chefe". É estranho isso. Mas até que está funcionando.
Me pego pensando em uma menina, em uns sentimentos que não sei o que fazer. Penso em umas idéias para o mestrado que eu não conseguiria entrar. Na distribuição social do poder. Penso num balde que não sei se devo pensar.
Eu sei que é difícil viver sempre a cento e cinqüenta quilômetros por hora. Mas, fora raras situações de estrada livre, ando me sentindo como na música de Friends - "It's like you're always stuck in second gear".
Nenhum psicólogo vai saber me dizer qual é a medida para saber valorizar o que se tem, e ficar satisfeito, ou resolver que a vida é agora, e tem que ter algo a mais.

Eu tenho uma rebeldia, que talvez até seja sem causa, que me faz me afastar de muitas unanimidades - iPhones, viagens ao exterior, modas e marcas, shows que todo mundo quer ir, comportamentos que dão certo para todo mundo. Uma vontade insistente de nadar contra a maré. Não em tudo, claro. Tem vezes que desisto e descubro que ir na onda era bom, e que teria sido mais fácil fazer isso antes.

Eu queria escrever alguma coisa aqui. Sinto falta quando não escrevo. Escrever é pensar um pouco, também. Bem dizia Sabino sobre escrever as coisas que não sabe, "justamente para ficar sabendo". Pensei numa crônica, pensei numa confusão, fiquei no meu umbigo, e sei até um pouco. Só não sei o que faço da vida.

22/04/2011

Diógenes de Sínope

Não me tires aquilo que não podes me dar.
"Se nós herdarmos toda a capacidade e cultura de nossos homônimos..."

A estranha forma que a colega, que não me conhece bem, achou para me anunciar no amigo secreto. Depois explicou a referência a Diógenes de Sínope.

12/04/2011

Alento

A Webjet manda, uns bons dez dias antes da data da viagem, a sugestão de que você faça seu "Web" check-in.
Não acredito que haja muita gente besta o suficiente, por aí, para fazer um check-in com dez dias de antecedência. Em dez dias o mundo muda.
Mas, ainda assim, não deixa de ser uma felicidade receber a mensagem no meio de uma tarde atribulada, suspirar, e pensar: "eita, que daqui a dez dias eu tô na Bahia!".

Davi e o Celular

(O texto é de minha mãe. Já fez para que eu publicasse no blogue. Virou casa da mãe Joana, isso aqui. Se bem que vem bem a calhar, dado o paradeiro que está.)
(Ah! E ela perde a moral com o moleque publicando uma coisa dessas.)

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Um dia eu conversava com outra mãe e explicava que Davi estava sem celular porque estava de castigo. Aí informei quantos celulares ele tinha quebrado/perdido em uns três anos. Ele tava por perto e me corrigiu. Eu tinha esquecido de mais um.

Quando ele saiu de um ano de castigo dei um aparelho bacaninha pra o moleque e em pouco tempo a coisa estava quebrada. Levei pra consertar. Cheguei em casa com o orçamento inviável e o aparelho na mão, sentei, mandei ele sentar, e fiz um sermão misturado com lamentação de eu ter caído na besteira de dar aquele presente pra ele. Ele ouviu quieto, cabeça baixa, uma olhadinha discreta de vez em quando pra mim, cara de conformado. Eu conclui com um gesto semi-dramático, empurrando o aparelho para o centro da mesa:

- Taí. Não serve mais pra nada. É lixo. Agora pelo menos cuide de levar para o lixo apropriado. Ou você quer que eu faça isso também?

Levantei e fui saindo. Ele me chamou:

- Mãe?
- Hum.
- É lixo mesmo?
- Ééé, Davi!
- Mãe, eu sempre tive vontade de jogar um celular na parede. Posso?
- ..., ..., pode, né? Mas lá na área de serviço, na cerâmica.

Ele catou o aparelho na mesa, foi pra área e o explodiu contra a parede em um movimento só.

(Eu tive que ser esperta pra chegar junto a tempo de assistir tudo. É que de vez em quando também tenho vontade de fazer isso).

01/04/2011

Limite de velocidade

Quem quer respeitar o limite de velocidade existente hoje precisa dividir perigosamente a atenção entre a pista e o painel do carro, onde fica o velocímetro. Além de que as numerosas alterações de limites das pistas, invariavelmente seguidas por radares eletrônicos, motivam também uma atenção significativa para fora da pista.

Sendo os limites baixos, o fluxo de tráfego força os poucos eventuais motoristas lentos o suficiente para não precisar se preocupar a andar mais rápido.
 
A alternativa pela qual quase todos acabam optando, hoje, é respeitar o radar, e não o limite. Não precisam prestar atenção no velocímetro e, ao invés de prestar atenção nas placas de velocidade, prestam atenção nos radares. Poucos motoristas insistem em dirigir na tênue linha entre o aceitável para o fluxo e o limite, que é praticamente a própria velocidade exata do limite. Estes acabam sendo mais barbeiros que a média, pois atrapalham o fluxo e são constrangidos freqüentemente a mudar de faixa.

Busca constante

À medida que os anos passam, me parece que trabalho mais e me divirto menos. E não sei bem porque.
Até acho bom o trabalho. Não queria que a diversão fosse função inversa.

Setorizado

Ontem estava um temporal na Asa Sul e, logo após o Buraco do Tatu – onde começa a Asa Norte – estava seco. Sem uma gota de água no asfalto.
Brasília é tão organizada que chove por setor.

27/02/2011

Pingue-Pongue (Ou "O gatilho rápido de Renatinha")

Show your weapons!
Com alguns dias de affair, íamos pegando intimidade e conversando de um jeito mais solto.
 
- Fala sério... Você ia para o Bar das Velhas com o objetivo de paquerar, mesmo?

Embora à primeira vista isso possa parecer o contrário, eu que tinha perguntando a ela.
 
- Ia, ué?
- Por quê?
- Não achei você lá?
- Por acaso. Eu não teria ido lá paquerar.
- Por isso!
- Por isso?
- É. Sei lá... Quando a gente vai naqueles barezinhos na Asa Sul fica tudo parecendo falso!
- ???
- Os caras todos penteadinhos, bonitinhos, demonstrando que são ricos - sejam ou não! Metidos a viris, vencedores, e ao mesmo tempo dando uma de educadinhos... Não gosto, sabe. É artificial.
- Lá no Bar das Velhas, por outro lado...
- Lá é outra coisa, ó! Achei você meio desarrumado.
- Eu até que tinha pretendido me arrumar...
- Não é assim nenhum galã!
- Mas pegável, pelo jeito!
- Claro, claro... Pobre!
- Pô! Para os padrões de Brasília!
- Para os padrões dos trinta anos, também!
- É...
- Pois é...
- Fale mais! O assunto tá agradável!
- Tá bom! Não tem o pau grande!
- Pô! Mas também não é pequeno!
- Mas para alguém tão desprovido de atrativos, poderia ao menos...
- Você tá comigo porquê, ora?
- Boa pergunta!
- ...
- ...
- Talvez meu senso de humor... Eu te faço rir!
- Fica fazendo piada o tempo todo, acaba acertando uma ou outra! Mas não chega a ser nenhum Danilo Gentili.

Fui comparado com o Danilo Gentili e perdi. Tô no lixo. O jeito é tentar dobrar a aposta.

- Bom de cama!
- É... É. Isso é!
- !
- Mas não fique convencido!

Ah, os diálogos de Renatinha!

Aquela sexta-feira! (Ou "O dia em que eu conheci a Renatinha!")

Enche o tanque!
Naquela sexta-feira minha namorada havia viajado. Meus amigos - colegas de trabalho mais velhos que eu - só toparam sair para o que eles mesmos chamam de "bar das velhas". É um bar dançante chamado Calypso na Asa-Norte, algo parecido com o velho Casquinha de Siri de Salvador.
A idéia é que as mulheres que estão lá, de uma faixa de idade realmente mais avançada do que a minha - e do que a deles, até - tem uma atitude mais pró-ativa em relação ao processo de aproximação. Não se fazem de tão exigentes, não querem perder mais tempo do que já perderam com bobagens na juventude, não estão procurando nada tão especial. Querem se divertir e pronto, acabou. Em um certo aspecto, as mulheres depois de certa idade tornam-se homens, se é que vocês entendem meu ponto de vista.
De qualquer forma, enchíamos a cara despreocupadamente, como de costume. Na primeira hora, Miro já tinha cruzado olhares com uma coroa recauchutada, com plástica no rosto, silicone na comissão de frente. As pernas pareciam originais de fábrica, e ainda davam uma boa caminhada. João não tinha feito contato, mas estava tranqüilo. Eu ainda não tinha bebido o suficiente para baixar o controle de qualidade.
Dentro de mais algum tempo, os dois dançavam animadamente com duas coroas, e eu estava sozinho no bar.

- Perdido por aqui?

Me virei esperando encontrar alguma coroa mais assanhada, e avaliar a proposta, mas, puta-que-pariu, que surpresa! A menina era linda e devia ter uns vinte e cinco anos. E com um olhar sacana. Pensei rapidamente que isso não podia ser verdade, que essas coisas não aconteciam comigo, que quando aconteciam eu estava acompanhado (já aconteceram mas eu sempre estava acompanhado!), que os caras iam ficar de queixo caído, que eu não podia estragar tudo, e de tanto pensar já estava demorando de responder...

- Acho que estou um pouco perdido, sim... Mas... Mas você também não parece muito com este lugar!
- Gosto daqui.
- Está sozinha?
- Vim com umas colegas de trabalho, mas elas já estão na pista de dança. Eu tava lá, também, mas resolvi parar um pouco.
- Aceita um drinque?
- Pode ser uma cerveja!
- Uma cerveja, por favor!

Cerveja! Quantos pontos uma mulher ganha quando pede uma cerveja?! Se pede Bloody-Mary, sex on the beach, vinho, champanhe, coca-cola, tá valendo, mas se pede uma cerveja... Sei lá. Sinto que desceu um degrau e se nivelou a mim. Que talvez possamos ir para o carnaval e encher a cara de cerveja, ir para as festas e curtir tomando todas, que não precisa de frescura, que um dia vamos discutir sobre a comparação do sabor da Antárctica com a Skol, Heineken, Brahma, Nova Schin... Hein? Que prazer inexplicável! "Essa Itaipava também não é ruim, não"!
Nada melhor que uma mulher que bebe cerveja!

- Voando alto?
- Viajei um pouco, aqui, mesmo...
- Hum...
- Você vem sempre aqui?
- Gosto daqui?
- Por quê?
- Sei lá. Sei que sou meio estranha no ninho, mas acho mais legal assim. Quando vou pros bares com a turma da nossa idade fica sempre aquele negócio - parece que tá todo mundo querendo alguma coisa, todo mundo mostrando o que não é, fazendo pose. Aqui as coisas são mais sinceras!
- Mas as opções devem ser mais limitadas...
- Às vezes pinga alguma coisa melhorzinha!

Coisa melhorzinha! Tá no papo! Nunca ser chamado de "coisa melhorzinha" me soou tão bem!

- É. Não vou negar que há surpresas boas, mesmo!

Sorrimos.

- Vamos dançar?

Fomos.
Mais tarde nos beijamos. Só depois lembramos de perguntar os nomes...

- Qual é o seu nome, mesmo?
- Renata! E o seu?
- Diógenes.
- Como?

A música estava alta, nós estávamos bêbados, minha mãe não sabe em que confusão ela me colocou com esse nome...

- Pode me chamar de Dido!
- Renatinha, então, Dido!
- Prazer!
- Você ainda nem imagina!

Uauuuuu!

23/02/2011

Quanta pica!

A conversa era sobre trabalho. Informal, numa mesa de boteco.
Fiquei foi impressionado no quanto o meu colega usava metáforas sexuais. Era o tempo todo.

- Tem que se foder? Mas assim a gente vai se foder com a trolha do negão de 40cm! Eu disse "peraí mais um pouquinho... Vamo procurar um japonês de 5cm que é menos ruim"...

- O povo quer fazer tudo atropelado! "Fulano. Pode confiar em mim. Eu vou botar a bunda na janela junto com você! Mas vamos só subir uns dois andares, antes, que a gente está no térreo!" No térreo é mais complicado, não é?!

- Aí o sujeito tem que dormir de calça jeans. Dorme um dia, dorme dois dias, dorme uma semana, mas quando chega a hora a coisa vem pior!

21/02/2011

Resumindo o problema

Enquanto as peças que quebram não fazem o carro parar, a gente vai se virando.


Sono
36 horas sem pregar o olho - vai saber o que é...

Dermatologia
Alopécia e dermatite - Fatores emocionais e genéticos.


Ortopedia
Síndrome do Túnel de Carpo - formigamento na mão, LER/stress, possível necessidade de cirurgia.

Gastroenterologia
Pólipo no esôfago - resultado da biópsia para quinta-feira. Má alimentação, stress, bebida, cigarro.
Pangastrite e esofagite - má alimentação, stress, bebida.


Cardiologia
Bloqueio de Ramo Direito de grau 1, com padrão de repolarização precoce - bebida, cigarro, possível fator genético, possíveis problemas pulmonares, sedentarismo, stress.

As pesquisas continuam...

(Quando o cardiologista diz "não é nada para se preocupar, não, mas..." é bem difícil não se preocupar.)

18/02/2011

Juventude na alma

Uma das piores hipocrisias é estender suas derrotas aos outros.
Há quem faça piada do idealismo da juventude, da vontade de mudar o mundo, do quanto os jovens se sentem fortes e capazes.
Há muitos jovens alienados – talvez mais hoje que em outras épocas – mas sempre houve e sempre haverá a juventude boa, consciente, com vontade de abalar o que há de ruim nas velhas estruturas.
É claro que o ímpeto e a inexperiência causam algumas besteiras, e até algumas situações ridículas. Isso é normal. Saber ter autocrítica, humildade, e até rir de si mesmo, é necessário.
Mas a vontade e a esperança são louváveis, e importantíssimas para a sociedade hoje e sempre.
Muita gente, quando envelhece, faz pouco disso. Parte deles nunca foi um jovem na alma, e se ressente de não ter sido. Parte deles um dia foi, mas tiveram suas derrotas e se tornaram amargos.
Arqueiam as sobrancelhas, do alto de suas rugas, como sabedores da verdade. Rotulam os jovens de inocentes, crédulos. Fazem pouco deles.
Dizem ser a prova viva de que o mundo é dos canalhas.
No fundo tentam, desesperados, justificar para si mesmos e para o mundo o quanto são pequenos.

Alguém mais está vendo isso?

Dá pena de deixar de comprar um bom conjunto de três facas Tramontina por R$ 14,90.
A alternativa racional acabou por ser um conjunto de sete facas e uma tábua de cortar carne por R$ 10,90. Produzido na China, lógico.
Obviamente não chega à qualidade do brasileiro, mas não deixa de ser bom.
A pena não é nem tanto pela qualidade. É por pensar na indústria nacional.
A China está dando um banho na nossa indústria. Tudo é chinês - dos eletrônicos ao conjunto de facas. E não se está fazendo muito a respeito.

09/02/2011

Davi não dança

 Davi vinha no carro irredutível.
- Não danço forró. Não gosto!
Eu tinha argumentos consistentes.
- Você vai acabar dançando. Quando for numa festa, as menininhas quiserem dançar contigo... É melhor se render e começar a aprender logo.
- Não gosto!
- Mas nem por uma gatinha querendo dançar com você?
- Pobres das meninas se dependerem disso!
- Pobre de você...
Ele até concordou com o "pobre de você", mas fez pé firme que não dançava de jeito nenhum.
Chegamos ao Balaio, e depois de duas Coca-Colas e um convite de Carol...
Meu garoto!
Olha o sorriso incontido!


01/02/2011

Cerda média

É assim que se escova os dentes!!!
A dentista me explicou por A + B, lá em Salvador, os motivos pelos quais eu deveria utilizar escova de dentes com cerdas de consistência média. Explicou que a gengiva fica mais ao alto, durinha, rosada, não acumula sujeira, diminui o risco de cárie e gengivite, uma maravilha só. Disse que no começo ia doer, sangrar um pouco, mas que eu escovasse com vontade, que ia ser muito melhor para mim.
A dentista que fui agora, em Brasília, disse que minha gengiva está retraída e perguntou que tipo de cerda de escova de dentes eu uso. Cerda média. Ela me disse que eu não use de jeito nenhum, que minha gengiva está retraída lá no alto, que não protege os dentes e que não é saudável. Muito embora eu não tenha tido nenhuma cárie, nem nada para fazer além da tradicional limpeza e aplicação de flúor.
Eu, que sou obediente, já comprei a escova de dentes de cerda macia. Mas fico com a impressão de que os dentistas precisam fazer um bom congresso e convencionar alguns entendimentos.

09/01/2011

Comida, aquilo...

I can't get no...
Num bifê que eu freqüento há, abaixo da balança, uma velha etiqueta esquecida que anuncia “Tara do Prato:”. Depois dos dois pontos é papel em branco – espaço para a idéia.
Minha imaginação previsível completa sempre com a especificação da tara do prato.
“Tara do Prato: me preencha, me lambuze, sirva-se em mim, me use, me lamba, até babe!, se enfastie, e depois, suavemente, me dê um banho... Ahhh!”
 
Um prato deveras tarado...

07/01/2011

Dialética

- Essas horas que eu tenho saudade da minha ex-namorada. A menina só tinha um irmão, e o bicho nem falava com ela direito.
 
Amigo casado que levaria a família da esposa em viagem no fim de semana.

13/12/2010

Demonstração de resultados

Até que o lugar é simpático...

...e como tudo o mais por aqui, bem organizado.
Todo mundo diz que faz um balanço do ano. Se for a figura contábil, é mais adequado dizer que faz uma DRE.
Minha mãe, há poucas horas, via telefone, chateada porque aluguei um apartamento mais baratinho no Núcleo Bandeirante, sapecou que me vê desistindo das coisas, e que a vida não é assim, não. A vida é aqui e agora.
Me fez pensar no ano. Em muitos aspectos este foi, certamente, o ano mais intenso que já tive.
Ajudei as pessoas com quem me importava - isso, aliás, venho fazendo todos os anos - espero que Papai Noel esteja observando. E isso consumiu muito dos meus recursos (este ano mais do que nos outros, até).
Mesmo assim quitei minha dívida do financiamento, fui promovido, comprei meu primeiro carro zero, fiz trinta anos, fui professor por um mês, com perspectiva de continuar a ter oportunidades de sê-lo.
E desisti e fui derrotado pra caramba, também. Há dois meses tomei consciência de que tinha fracassado há muito tempo em um relacionamento no qual continuava investindo recursos, expectativas, sentimentos. Fiquei mal. Perdi também a oportunidade de uma promoção melhor, para a qual estava no banco de habilitados e não deu certo. Desisti, em meados do primeiro semestre, do mestrado que estava tendo oportunidade de iniciar em sociologia, na UFBA. Pela mesma época desisti de aprender violão, porque tive que viajar. Desisti de morar em São Paulo, que ainda me deslumbra, desisti de morar no Plano Piloto que é muito caro. Abdiquei de ficar próximo da minha família, porque c'est la vie. Penso sempre em tudo isso, umas coisas mais, outras menos.
Algumas dessas desistências são adiamentos, é bem verdade. De muito tempo. O violão eu adio há mais de dez anos. As aventuras, viagens legais, etcéteras, adio para quando tiver tempo, recursos financeiros e recursos humanos. Nunca tenho... O mestrado complicou, mesmo.
E, além disso, foi certamente o ano em que passei mais tempo só, andei boa parte do ano de ônibus, tive menos diversão, menos sexo, menos conforto em casa, menos condição de planejar mais do que duas semanas, menos momentos de descontração com amigos, cerveja, dominó, violões, risadas.
Li uma vez numa revistinha do Homem-Aranha (que vai ser vendida a um sebo em São Paulo nos próximos dias) a Mary Jane falando para o Peter Parker que ser adulto é ter que fazer escolhas, sabendo que nenhuma delas é perfeita.
Ninguém ganha todas, muito menos eu. Ninguém dá 100% o tempo todo, e nem eu. Mas eu me esforço bem.
No fim de semana que está chegando eu entro no apartamento novo, o tal alugado no Núcleo Bandeirante. O fim de 2010 e o começo de 2011 vão ser estruturando o apartamento, gastando talvez até mais do que economizei por morar lá, em móveis e eletrodomésticos, aprendendo os atalhos, conhecendo a cidade nova, ajeitando a vida nova.
E aí entro em 2011 com um pé bem apoiado, o que, como bem sabia Arquimedes, é grande coisa.

12/12/2010

Carro responsável

O céu tá preto.
Esses dias, quando eu ia saindo do meu carro, ele começou da soar um apito chato.
Voltei para ver e era o farol que tinha ficado ligado.
Nunca um carro meu tinha tido consciência e consideração de me avisar uma coisa dessas.

08/12/2010

Serviço

Todo castigo...
- Diógenes! Como é que tá o serviço "X"?
- Tá andando, meu velho. Agora não tá dando para adiantar o "Y", eu tô trabalhando no "X" em tempo integral.
- E Fulana? Ensinou para ela? Tá te ajudando?
- Chefe, eu até expliquei para ela e dei uma parte para ela fazer, para eu tirar as dúvidas quando fosse necessário, mas ela não foi muito para a frente, não.
- É. Acho que o serviço é muito técnico para ela. O perfil dela é mais gerencial.
- Com todo o respeito, chefe, mas o serviço não é só técnico, não. É muito chato. Como se diz na minha terra, um trabalhinho de corno!
- Mas e você? Tá conseguindo fazer direitinho?
- ... ... Tô...
- O importante é adequar o perfil do funcionário ao serviço.

Você quer que eu conjugo certo?

Brasília, nisso, sofre a má influência de Sampa. O pessoal conjuga verbo pior que criança na escola primária em Salvador.
Não é bairrismo, não. Em Salvador tem muita gente que fala barbaridades, erra concordância, tem vocabulário limitado, o escambau.
Mas em São Paulo, e em menor grau (mas ainda muito) aqui, gente esclarecidíssima, gerentes, doutores, e daí por diante, viram para você e perguntam, na maior naturalidade:

- Você quer que eu ligo para ele?
- Você quer que eu faço isso agora?
- Esse é para que eu peço?
- Vamos querer que ela manda isso?

O impulso é de responder tudo não, e ir corrigindo.

- Não. Eu quero que você ligue para ele.
- Não. Mas, por obséquio, faça isso agora.
- PelamordeDeus... “Quer que eu peço”? Peça.

29/11/2010

Descaminho

Em Salvador eu já tinha os meus roteiros definidos. Noitadas na Barra ou no Rio Vermelho, trabalho e uma vez ou outra uma cerveja no Campo Grande, casa na Federação, visitas a parentes na Pituba e em Brotas. Eventualmente um acarajé enquanto o sol se põe na Dinha, um cinema num sábado preguiçoso no Aeroclube, umas cervejas com amigos no Garcia. Bem raramente, Busca-Vida.
Em São Paulo eu já sei o caminho do cheiro de pipoca com cigarro nos cinemas da Augusta, os botecos de ver-as-moças na República, compras nos xing-lings na 25 de Março ou na Paulista. Flamengo jogando no boteco dos flamenguistas na Vila Madalena. Bicicleta e água-de-côco no Ibirapuera, em dias de folga...
Aqui é tudo organizado, setorizado, e eu não sei quase nada.
Me perco indo a médicos, e meus exames nunca estão prontos. E o pior é que não estou nem um pouco a fim de tomar remédio.