17 de abr de 2016

Parece que vai ter golpe

A gente fala que tá ferindo a democracia, mas não explica o que isso quer dizer.
Quer dizer que, depois desse circo de horrores, está aberta a possibilidade de desrespeitar o voto popular e tomar o poder por outros meios.
Nenhum lado, a partir de agora, pode acreditar nas regras do jogo - o embate passa para outros meios.
O congresso nacional é uma vergonha - poucos parlamentares se salvam.
Quem apoiou isso aí, a esta altura, caiu na real? É bem provável que em breve tenhamos Temer como presidente e Cunha na primeira posição da linha sucessória.
Estamos no mesmo barco - somos todos iguais, braços dados ou não. Espero que esse barco vá bem, mas acho que isso ficou muito mais difícil a partir de agora.
Como costuma dizer um amigo: a conferir.

8 de abr de 2016

Insônia diletante

Clareando em Brasília. Minha mãe disse uma vez que vivo minha insônia "por puro diletantismo". É, provavelmente, o adjetivo mais sofisticado que minha insônia vai ganhar na vida.
Tem dias que eu simplesmente não consigo. O trabalho indo por água abaixo, a namorada quer discutir o relacionamento, minhas pequenas coisas... E, em cima de tudo isso, ainda tem a direita tentando dar um golpe de estado.
Como é que dorme?

29 de mar de 2016

A esquerda não fala nossa língua

#nãovaitergolpe #vaiterluta



Uma das falhas mais evidentes da esquerda é na comunicação. Não o fato de ter pouco espaço nos jornais de grande circulação, revistas e canais relevantes de TV, tampouco a língua enrolada que é epidemia nas lideranças. Falo de terminologia, encadeamento de idéias e análises ruins.


Por um lado o discurso médio da esquerda consegue, muitas vezes, empatar com o discurso da direita em maniqueísmo e falta de autocrítica. Talvez alguns dos escritores não percebam que lidam com pessoas mais inteligentes e mais cínicas do que antigamente; talvez outra parte pense mesmo que simplesmente a esquerda é do bem e a direita é do mau. Mesma coisa que o discurso médio da direita faz, só que ao contrário.

De forma paradoxal, grande parte dos textos usam conceitos e argumentos antigos, ou mesmo novos mas que só se ouvem nos meios sindicais e de movimentos sociais. Estas palavras e idéias não estão do mapa de referências da maior parte do povo, a quem os escritores deveriam querer atingir. Pior: muitas vezes são simplesmente fantasiosas.

Há honrosas exceções, claro. Mas a maior parte de quem produz conteúdo precisa se atualizar se quiser ser ouvido/lido por mais gente. E tem que entender que essa "mais gente" provavelmente é a mais importante: pessoas mais ao centro no espectro político ou indecisas, que podem ser convencidas por um lado ou pelo outro.

Nem tudo é culpa dos Estados Unidos ou da dívida externa. Nem toda solução é fácil. Nem tudo que o PT fez ou está fazendo é bom. Nem tudo que o PSDB faz ou fez é ruim ou deve ser relativizado. É bom ter, no mínimo, cuidado de embasar muito bem quando falar em fascismo. Não adianta falar em trotskismo. Palavras como "sanha", "fascínora", "império", "PIG", normalmente podem ser substituídas por outras mais simpáticas ao leitor.

E isso está certo: não é impeachment, é golpe. É possível explicar isso para mais gente, se melhorarmos a qualidade da conversa.

4 de mar de 2016

2 de mar de 2016

Pioneirismo de trânsito

Saio de casa cedo, resolvo alguma coisa na rua, trabalho minhas oito horas e fico por lá mais uma, de almoço, dependendo da época mais umas duas horas-extras... De lá vou para o mestrado, mais umas três horas de aula, e depois finalmente vou para casa.

Aí passo, todo santo dia, pelo meu caminho, por um painel luminoso do DETRAN com os dizeres: "Não dirija cansado. Pare e descanse!". Fico pensando no que faço, se passar a obedecer.
Dicas importantes
Outro painel interessante que se lê, no meio da Estrutural ou da EPTG, importantes avenidas de Brasília, é "Use a pista da esquerda somente para ultrapassagem". Dependendo do horário, engarrafamento brabo, cheio de gente na pista da esquerda.

Por fim, para não deixar de citar, recentemente fizeram uma campanha de rádio e TV em Brasília dizendo que agora todo mundo sabe que não pode beber e dirigir, mas ainda há um risco a ser evitado: o dos pedestres alcoolizados. A propaganda terminava conclamando: "Pedestre, se tiver consumido bebida alcoólica, mantenha-se longe das vias!".

Pioneiro.

27 de fev de 2016

Licença paternidade

O que seria de nós...
 
Não lembro que conexões o assunto fez para chegar até a lei em trâmite que muda a licença paternidade, durante aula de Teoria da Complexidade do mestrado. Tocou-se no assunto, alguém perguntou se estava sendo estendida para vinte ou trinta dias, e uma das colegas já manifestou sua contrariedade rapidamente:

- Acho desnecessário!

A conversa seguiu pouco tempo, um pouco polêmica, com quase todo mundo falando e dando opinião. Nesta eu estava calado. Tinha os que diziam que deveria ser 30 dias, outros que deveria ser 20, a menina sustentando que não precisava disso, teve também quem dissesse que o ideal seria ser pelo mesmo período que a licença maternidade. Uma outra colega interveio:

- Se nos primeiros 30 dias, além do meu filho, meu marido ficasse em casa me dando trabalho, eu não ia agüentar!

Alguns risos soltos, umas caras de surpresa, outros risos tensos, e a conversa acabou.

Vivo

Gripado e jogado no sofá, hoje, acabo de ter a satisfação de assistir um comercial inesperado.

Era uma homenagem bacana a Cazuza. Um comercial demorado, cujo protagonista era um cupido com jeitão de Cazuza, e flechava pessoas em diversas situações enquanto se ouvia a música "Exagerado" - situações que chamaram minha atenção para parar o Candy Crush e assistir o comercial direito.

Nota 10. Ao final, dizia-se que era uma homenagem aos 30 anos da música e ao seu autor, e só na última cena, mesmo, depois de terminar tudo, apareceu a marca e o ouviu-se o mote "Vivo!".
O tipo de coisa para a qual eu tiro o chapéu - rara mas presente na publicidade. Tá aqui o atalho se alguém quiser conferir.



Estou com um processo contra a VIVO (se eu contar tudo que eles aprontaram comigo o texto fica longo), no SERASA injustamente, e isso está me impedindo de trocar minha internet da SKY (que tá uma porcaria e ninguém resolve) para a GVT. A GVT era a única empresa de bom serviço e atendimento que eu conhecia no setor de comunicação no Brasil, e esses dias saiu a notícia de que a marca será extinta, passando tudo para a VIVO. Ou seja: vai ser incorporada à estrondosa porcaria que são as outras.

O comercial é muito legal, mas a empresa é uma desgraça (não gosto de usar esse termo mas tem horas que nada adjetiva melhor). Perdermos a GVT para a VIVO foi um prejuízo.

21 de nov de 2015

Confesso que errei...

Pô, Nony! Mal minha!
Coisa bacana que tinha e não tem mais era a comunidade dos blogues. Pessoas liam blogues e entravam em contato - e nisso tive oportunidade de conhecer gente do Amazonas ao Rio Grande do Sul.
Conhecer é desde trocar mensagens e dar risada só pela internet até tomar um chope, ou virar amigo pra sempre...
Mas escrevo hoje não para elogiar essas pessoas - embora mereçam. Muito menos para listá-las. Quero falar de alguém a quem nunca dei atenção - hoje vi quanto fui injusto.
Tinha um camarada que sempre comentava o que eu escrevia sob a alcunha de "Anonymous". Parecia ser super boa praça! Um leitor que...

* Elogiava minha verve literária!

"Wonderful and informative web site!"
"Excellent, love it!"

* E até fundamentava os elogios!

"You have an outstanding good and well structured site."

* Me incentivava...

"Waiting for more!"
"Keep it UP!"

* Era chique - provavelmente meu único leitor internacional.

"Best regards from NY!"

* Como se não bastasse, me dava dicas ótimas!

"Didrex lowest priced"
"Free black amateurs"

Nunca respondi. Poderíamos ter sido bons amigos...

(Nony! Se você ainda ler isso aqui, mande um alô! Perdoe minha falta de consideração no passado...)

12 de nov de 2015

Tablet

A grande sacada do tablet é realmente combinar características importantes do celular e do notebook. Ele é:
- Muito grande para andar por aí usando o tempo todo, assim como o notebook ;
- Muito difícil de usar para trabalhos mais complexos, assim como o celular.

23 de jul de 2015

Érica e eu

O velho provérbio dizia "quem fala demais dá bom dia a cavalo". Os cavalos não avançaram tanto, mas meu carro já fala comigo. É até um alento, já que ando me sentindo só.
Aliás, foi através da fala que descobri que meu carro é mulher. Botei o nome de Érica. Não sei explicar por quê, mas Érica parece nome de lancha, e por isso achei bom para o carro.
Esses mecanismos de fala ainda tem o que avançar, precisam ser mais afáveis. Eu cutuco o volante e Érica responde secamente, sem a menor simpatia.

- Por favor, diga um comando.
- USB.
- USB. Por favor, diga um comando.
- Reproduzir.

Acho que máquina gosta de resultado, e ela acabou de atingir seu objetivo. Neste momento, muda o tom e dá para sentir alegria - a voz sai maviosa.

- Continuar a reprodução!

Mas quem programa esses softwares precisa ter um pouco mais de sensibilidade - priorize-se a regra mas considere-se a exceção. Algumas coisas me deixam chateado. Por exemplo, quando peço para reproduzir a canção Expresso 2222, ela diz:

- Reproduzindo faixa Expresso Dois Mil Duzentos e Vinte e Dois.
- Pô, Érica!

E a pior de todas, é quando eu tenho que dar o comando:

- Reproduzir artista Raul Seixas.

Cancelamento da segunda feira

Sofá, noite do domingão, lasanha no bucho e Silvio Santos na TV. Eu tava espalhado no sofá, quase dormindo, enquanto Sílvio gritava "quem quer dinheiro?". Tocou o telefone.
Pego para atender e vejo a cara sorridente do meu chefe, olhando para mim. Apesar do sorriso, boa coisa não podia ser.

- Fala, chefe!
- Boa noite, Diógenes! Tudo em paz?
- Até agora...
- Hehehe. É o seguinte: tô ligando para avisar que cancelaram a segunda!
- Como assim?
- Assim, mesmo!
- Que segunda?
- A segunda-feira.
- Oxente, chefe! A reunião que tínhamos com o pessoal da arquitetura?
- Não! A segunda-feira, mesmo! Toda!

Cada vez mais confuso...

- Decisão da diretoria?
- Não, que a diretoria não tem autoridade para isso! Foi decreto da presidência da república?
- Hein?
- É. Parece que tem alguma coisa a ver com as medidas de austeridade.

A esperança crescia.

- Mas então não é para ir trabalhar amanhã?
- A medida foi anunciada, mas os detalhes e as conseqüências ainda não estão claros. Um cenário possível é que amanhã simplesmente seja terça, ou talvez não precise trabalhar, mas temos que ver se o nome do dia continua sendo segunda-feira. Estou convocando todo mundo para analisarmos o decreto amanhã de manhã, e ajustarmos normas e procedimentos!
- Ah, tá. De manhã que horas?
- Dada a gravidade da situação, precisa ser cedo. Quero iniciar a reunião oito horas, então tem que chegar um pouco antes.
- Ok.
- Terno e gravata, que nosso diretor deve passar lá.
- Ok...

Boa coisa não podia ser.

14 de mar de 2015

Qualquer coisa - O Múcio comentou que meu texto foi uma mixórdia.

Com certeza, se um dia eu vier a ser um empresário, e botasse para funcionar o meu sonhado boteco especial de cerveja e dominó - o "Lasquinê", "Mixórdia" seria o nome da farofa de ovo que, naturalmente, seria marca registrada do "Lasquinê".
Teria também o "Carimbo" - talvez um crepe numa chapa personalizada, que marcasse com um L estilizado a massa. Talvez não, ainda não tenho certeza.
E ainda não pensei no prato que teria o título de "Esbórnia"... mas esse ia ser o carro chefe, com certeza.


Causo - Como sacanear sua prima por anos com cretinices por um fora.

O ano era o inocente 1999, e se não era tão inocente assim, eu o era. O baiano.blig já até existia, mas isso não vem ao caso.
Pity, minha priminha, fazia seu aniversário de nove anos, numa "mini-boate" que tinha na Marquês de Leão, na Barra. Nem adianta que eu não vou lembrar o nome.
A meninada era bem riquinha, com aqueles jeitinhos de "patis" e "mauris" do Módulo (o Módulo Criarte - na época). Formavam-se os grupinhos, meninos para um lado, meninas para o outro, tudo certinho.
A uma certa altura do campeonato, os animadores joselitos contratados fizeram um concurso de dança. Escolheram Priscilla a melhor das mulheres, por motivos políticos, e deram a ela a incumbência de apontar o melhor entre os meninos.
Neste instante, tomando uma cervejinha e olhando o movimento, eu e Ernani, amigo da família desde que me lembro, voltamos nossa atenção para o seríssimo concurso.
Priscilla teria que escolher algum menino, por imposição da situação, e nós iriamos sacanear, porquê dois mais dois é quatro e cada um tem noção de sua missão na vida. Algo natural.
Só que a entrega saiu muito melhor que a encomenda.
Ela declarou sua escolha no microfone - "PEDRO LIMA" e voltamos o olhar para o grupinho dos moleques.
Um loirinho, mais baixo que a média e do que Priscilla, fazia toda a sorte de gestos "sou o bom", peito estufado, batia uma mão no peito, olhava por cima para os outros, se balançava parecendo um calango (ou um rapper, se a referência for mais esclarecedora), batia nos bonés dos colegas como quem diz "quem manda aqui sou eu". Desfilou até onde estava Priscilla, balançando mais que tartaruga de banheiro, puxou ela com força, deu dois beijinhos na bochecha, pegou o troféu e voltou erguendo-o tal qual um Schummacher que acabou de conquistar o decacampeonato.
No outro dia, no almoço na casa de meu tio, já ríamos cretinamente.

- Pedro Lima, hein Piti? Ohohoho....
- Ééé! Pedro Lima, né?
- Ai gente! Cês são doentes, é? Não tem nada a ver...

Teve uma época Capricho que ela era apaixonada por um desses meninos de Malhação. Dizia com ares de seriedade.

- Oh... ele é lindo! Você está falando com a futura senhora Kayky Brito!
- Mais bonito que Pedro Lima, Piti?
- Chatoooo!

Uns anos depois, e muita chateação, ela chegou até a ceder.

- É, eu gostava dele sim...

Fez quinze anos outro dia, há uns três meses, e tava dançando com outro tiradinho, dessa vez com um boné estilo Márcio Vítor. Cheguei abraçando.

- Pedro Lima! Quanto tempo, meu velho!?
- Quem?
- Didoooo! Você é maluco!?

Essa semana eu fui almoçar na casa dela e ela visitava um fotologue, com um loirão malhado sem camisa. Vítor qualquer coisa, o título do fotologue.

- É ou não é um gato?
- Vítor, é?
- É. Meu ficante...
Assumo um tom bem sério:
- PEDRO LIMA sabe disso, Priscilla?
- Pô! Você não vai parar nunca, né?

Eu não. Sou chato até a morte... :)
[]´s

A tortinha.

Causo - Torta.

- Diógenes, bom dia!
- Alô, Diógenes?
- Opa!
- E essa torta, vai rolar?

A voz era de mulher, mas eu não estava reconhecendo...

- Torta... ?
- É! Tô de olho na sua tortinha, hein?

Só pode ser sacanagem.

- Minha tortinha?
- É. Vai rolar, né?

Tudo bem que outubro é o mês do meu aniversário, mas ou a menina morava na lua e se mudou há pouco, ou tinha muita intimidade comigo para fazer a brincadeira. A segunda opção me preocupava porque eu não reconhecia a voz.

- Ah... a tortinha.... né?
- É! Essa tortinha vai ter que rolar!
- De aniversário?
- É. Olha, se você quiser que eu traga da Tortarelli, a gente combina qual e é lá do lado de casa patati patatá...

Quem é essa louca?

- Viviane?
- Diga.
- ... hã? ... e qual é a média de preço?

Veio de Júpiter, no mínimo. O pior é que é bonita, a maluca. "De olho na minha tortinha"...
Ô...

[]´s

P.S.: Os fatos se deram no dia anterior ao início da greve.

Risos...

Olhos nos olhos.

Estes olhos nos olhos ao avesso. Tempo morno, de ficar assim.
Nessa cama morna.
Nem ir, nem vir. Nem nada.
E se tiver jeito, de onde vem a força?
Meu fôlego está curto.
E minha pulsação parece lenta.

[]´s
Eleições.

Geraldo declarou: "Eleitor não deve se preocupar com pesquisas!". Se o eleitor deve ou não, discute-se... mas ele, como candidato, deve estar bem preocupado!

[]´s

Bate, doutor!

Bate, Doutor!

Segundo a reportagem acima referenciada, Geraldo está partindo para atender um fetiche popular. "Bate, Doutor" seria o que os "populares" diriam, entredentes e com olhinhos semicerrados. Depois, diz o presidenciável, morderiam o lábio inferior.
Testemunhas afirmam que o candidato só se decidiu, finalmente, a partir para os tapinhas e mordidas, após o dia em que, numa padaria, um bigodudo gordo, com jeitão de português, teria lhe repetido o clamor algumas vezes "Bate, bate, Doutor, bate!". Olhava Alckmin com desejo, e deslizava sua mão por sobre os próprios quadris voluptuosos.


[]´s

Plano B.

É claro que eu fico feliz em ver minhas ex-namoradas - e ex-casos e outras que eu ainda pretendia tentar - se acertando na vida, achando caras legais que vão cuidar delas e fazê-las felizes.
Só que isso não me impede, em absoluto, de continuar achando que seria uma ótima alternativa ter uma enorme propriedade (sei lá, uma fazenda talvez) com vários ambientes onde eu pudesse deixá-las separadas e reservadas (tipo naqueles filmes de serial-killers, só que com consentimento e sem mutilações) me esperando ansiosamente sempre que eu tivesse tempo e disposição.

Ê vidinha limitada...

[]´s

Na Bíblia diz...

Minha avó Maria, entre tantos sob medida, me dá conselhos transplantados diretamente da Bíblia.
Confesso que nunca li a Bíblia. Mas, a julgar pelo repertório da minha sábia progenitora, tem coisas de muito valor.

* Quando eu achei que era uma ilha: "Evitai as aparências do mal."

* Quando quis encarar mais problemas do que pude, brigas maiores do que poderia ter chance: "Um homem não pode aumentar um côvado a sua altura."

* Quando a briga era grande mas não é impossível: "Esforça-te, tem bom ânimo e Serei contigo."

* Sempre: "Faz tudo com decência e ordem."

* E tem essa que ela me ensinou desde que eu era um molequinho, mas que até hoje repito antes de dormir: "Em paz me deito e durmo sossegado, pois só Tu, Senhor, me faz habitar em segurança."

(Em nome de Jesus, amém.)

[]´s

Mil novecentos e oitenta e dois...

Era um desses domingos à tarde preguiçosos, assistindo Faustão, com o bucho cheio do Bobó de Camarão e do Vatapá de Dona Lurdinha.
Julinha, a neta, senta no sofá ao lado do avô, Seu Joca. Julinha tem lá seus trinta e poucos anos, e o avô passa dos oitenta, "mas com carinha de setenta e nove", dizem as netas.
Ela pousa a mão sobre as costas do avô, num gesto de afeto, e assim fica por alguns momentos, eventualmente acariciando-lhe sob o pescoço. Seu Joca, distraído, aceita a carícia, permanecendo com sua atenção voltada para a tevê.

- Ê, Vôzão!
- Diga, minha filha...
- Grande ano, hein? Mil novecentos e oitenta e dois...

O avô estranha um pouco, visto que estão beirando maio de dois mil e oito.

- Oitenta e dois, Júlia? O que é que teve?
- Ôxe, vô! Só tô dizendo que foi um grande ano! O movimento pelas diretas... E o senhor lembra da seleção?
- Eu até lembro. Era o time de Telê. Grande time! Acabou que perdeu para a Itália, por infelicidade. Mas você tinha oito anos e não estava nem aí para futebol...
- Ah, vô... Mas eu reparava um pouquinho...

A esta altura, Seu Joca tinha um ar desconfiado. Não olhava mais para a televisão, mas diretamente para a neta. Por um momento, ficaram os dois em silêncio.

- Sabe aquela galinha de vidro, que fica na estante do corredor?
- Sei, sei! Foi presente do...
- Do Coronel, não foi?
- Coronel Albuquerque! Ele e a esposa presentearam a mim e à sua avó, num jantar que demos quando eu fui promovido a Capitão.
- Quebrei...
- Ué? Não ouvi barulho nenhum?
- Foi em oitenta e dois...

O avô a encara um momento, se levanta e busca a galinha na estante. Examinando com atenção, percebe que o pescoço está colado e que há uma pequena lasca sob a asa direita. Volta-se para a neta.

- Em oitenta e dois, minha filha?
- É, vô! Mas eu não agüentava mais carregar esse segredo comigo...
- Agüentou por um bom tempo, hein?
- Olha: foi sem querer! Eu peguei da mesa de centro para colocar num lugar mais alto, porque Jana era pequena e estava querendo pegar para brincar. Aí acabei derrubando...
- Ê, menina desastrada! E é assim até hoje, né? Cê sabe que não tem importância, não, né?
- Sei, vô. Só precisava contar...
- Dá cá um beijo, minha princesinha!

Ela beija a bochecha do avô como fazia quando era pequena. O velho coloca a galinha de lado, no móvel ao lado do sofá, passa o braço sobre as costas da neta e volta a atenção para a televisão.

- Ê, Seu Joca! Vôzão!
- Ê, minha menina...
- ...
- E noventa e um, vô? Grande ano, hein?


[]´s

7 de nov de 2014


Tudo, tudo mesmo.
O problema é que estamos no meio de muitas coisas. Um desses pactos internacionais - talvez com um título elegante, como o Acordo de Frankfurt, ou o Tratado de Pequim - deveria estabelecer a meta de que se conclua tudo.
Tudo é tudo, mesmo. Como quando a gente livra a nossa mesa de trabalho de pendências, e se organiza para um novo projeto.
Não sei exatamente o termo pronto, mas seria algo como "Pacto da Antuérpia - Parágrafo Único: Tudo deverá ser concluído até a data limite de 31/01/2008." Assinado pelos chefes de estado de cento e cacetada países, e acabou.
Claro, a Argentina pediria mais tempo, ponderaria mil empecilhos. Nada que não se solucionasse com uma ameaça de embargo.
Daí, em 01/02/2008, a gente começava com mais calma, organizadamente, sem esse panavuê instituído.
Pinto Dois (ou "Mulher na carona também é perigo").

Essa foi do meu tio. Estávamos conversando sobre as mulheres no banco do carona e suas chiadas. Minha mãe, por exemplo, toda vez que sai comigo, eu dirigindo, "salva minha vida" umas quatro vezes. Impressionante como 99,47% das vezes que saio com o carro é sem ela, e estou vivo até hoje.
Numa dessas quase que ela causou um acidente: deu um grito assustador e eu freei no susto. O tempo que eu tinha calculado de cruzar a pista passou, e o carro que vinha em nossa direção teve que frear. De moto.
Mas me embrenho. Foi numa dessas que meu tio vinha com a ex-esposa, grávida de sete meses, para cruzar a contra-mão na Cardeal e entrar na garagem, num ponto um pouco perigoso, logo após uma curva. Olhou, embicou e ela deu um desses gritos desconcertantes - freou. Eu sei bem como é - é um susto como se houvessem visto algo muito importante, e que a gente não percebeu. E aí fazer o quê? Frear...
Vinha um carro correndo pela curva e, para desviar dele, saiu cantando pneu, bateu no meio fio, perdeu as duas rodas e um eixo.

- O que foi, Joyce?
- Um pinto! Você não viu?
- Porra... ver eu vi! Mas não podia frear por causa de um pinto! Podia ter matado o cara, ou a gente!

O pinto sobreviveu. Depois teve que se explicar para o policial da SET.

- Mas porque o senhor freiou bruscamente?
- Um animal cruzou o caminho, senhor.
- Um animal? Que animal?
- ... Um pinto.
- Se for um boi eu não paro.
- Esse é um direito do senhor. Eu paro.

Acabou que o cara ficou no prejuízo, e o pinto vivo. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

[]´s

Como uma puta.

Expressão idiomática.

Com meu distanciamento temporário do meio acadêmico, já me é perceptível um esfriamento das ligações entre os meus dois neurônios. Tal ocasião tem me impedido de utilizar minhas boas sacadas e meu bom humor rápido e inteligente habituais. Agora, como exemplo, mesmo escrevendo, que se tem mais tempo para pensar do que falando, não pensei em nada mais original para apelidar meus neurônios do que Tico e Teco ou Bruno e Marrone. Débi e Lóide, talvez... Mas teria demorado demais se fosse para encaixar na conversa.
Enfim. O mesmo ocorre quando vou tentar fazer analogias. Tenho me utilizado do curinga idiomático que é o "como uma puta". Sempre que é algo sujo, sexual ou pejorativo, ele cabe.

- E Fulano?
- Apanhou como uma puta.
- De tirar sangue?
- Sangrou que nem uma puta.
- Ê! Que é isso! Porque as coitadas das putas apanham e sangram desse jeito! Que sofrimento! Coisa feia!
- ...
- Ainda tá no hospital?
- Tá não. Já voltou ao trabalho. Aquilo é ruim que só uma puta.

---

- Quer dizer que cê já pegou Fulana?
- Fode bem como uma puta!
- É mermo, rapá? E largou porquê?
- Chia feito uma puta! Fica ligando que nem uma puta, depois.
- Porra...
- É...
- Mas uma putinha gostosa.
- Gostosa que nem uma puta...

[]´s
(Esses diálogos nunca existiram. De verdade. Uso a expressão, mas não cafajeste como uma puta, para dizer coisas como no segundo diálogo.)

Os meninos

O texto é da minha mãe. Mandou por e-mail com o título acima, e a recomendação "para o seu blog". Segue, então, que mãe é mãe e a gente que não obedeça...

"Tenho feito algumas coisas interessantes, outras chatíssimas, e hoje eu me dei folga. Comecei o dia numa chamada que a escola de Davi me deu. Vexame. Sentada na sala da diretoria, Davi ao meu lado, a diretora mandando retirar das salas onde estavam dando aulas cada um dos professores do meu filho para me dizerem pessoalmente: disperso, dorme durante a aula, conversa, brinca, chega atrasado, não faz a tarefa, amarra as mochilas dos colegas umas nas outras e... tirou "2" (!!!) em matemática no primeiro bimestre.
Saí de lá meio zonza e fui direto procurar uma professora particular para o reforço porque matemática também é o meu ponto fraco. Em casa dei orientações categóricas à empregada sobre o horário de Davi dormir e de acordar quando eu não estiver presente. E quando ele chegou eu o levei para o quarto para um papo sério, tipo: o que é que tá dando em você? nunca tinha recebido queixas de você! você viu que situação? que mico! Ao que ele respondeu tranquilo:
- Que situação, mãe? Você não imagina o que os outros pais passam!
- Aquela mulher é muito exagerada, mãe.
- Tive o maior azar que a professora de geografia não tava lá... era a única que ia me defender... mas o professor de história foi mais ou menos, né, mãe?
- Mãe, por favor, mãe, pelo amor de Deus, faz uma carta prá diretora me liberando das aulas de religião, mãe! Eu não aguento mais aula de religião...
Deixou escorrer lágrimas silenciosas quando eu determinei que ele iria acordar 10m mais cedo e comemorou quando eu avisei que vai ter aulas particulares de matemática com a moça que mora aqui no andar de baixo.
- Ela é uma gata!
Incrível como uma pessoa muda automaticamente ao fazer 13 anos. Na mesma semana a gente tem que se sintonizar.
Telefonei para Diógenes e contei tudo. Ele enfeza quando Davi sai da linha. Apenas quinze anos de diferença e ele esqueceu quem era nessa idade. Mas quando falei das aulas de matemática...:
- É com essa moça aí de baixo, mãe? Me dê aí os horários que eu vou comparecer também!
Eu relaxei. Esses meninos não têm jeito, e eles se viram. Instintivamente me dei folga e aproveitei para "folhear" o blog de Diógenes, que quase nunca visito. Adorei. Fiz uma seleção para guardar e para orientar as próximas visitas. Eu lia salteado mas agora vou virar blogueira. Diógenes é, Davi diz que é, então é bom."

A parte que não se aproveita

É claro que não se publica no orkut as fotos disso, mas a gente tem que reconhecer a existência disso.
Eu faço coisas das quais me arrependo, além de me arrepender de coisas que eu não fiz. Eu fico triste, às vezes. Às vezes acho as coisas difíceis. Algumas besteiras, volta e meia, me parecem obstáculos quase intransponíveis.
Tenho momentos que eu não quero as festas, e tenho vergonha de alguns aspectos de quem eu sou. Tem momentos que eu não quero ver nada nem ninguém, e sequer quero as janelas abertas. Quando isso acontece em fins de semana, ou em finais de tarde, freqüentemente levo a cabo tais (não) quereres.
Será que quem vai sempre nesse ânimo, sempre em frente, sem arrependimentos, sem tempo para o outro lado, sabe direito para onde está indo? Dá tempo para traçar, analisar, corrigir algum rumo?

16 de ago de 2014

Bicho Bruto

O colega me vê servindo o cafezinho até metade do copo d’água, enquanto conversa alguma amenidade com outro colega nosso.
Eu não entro no assunto e vou saindo com meu café, quando ele me interrompe:
 
- Assim, mesmo? Nem açúcar nem adoçante?
- Não, não. Gosto do gosto do café.
 
Falo sem dar muita importância.
Meu colega só balança o rosto e franze a testa, como quem diz “aí eu vi”.
 
Volto para minha mesa, abro minha gaveta, pego meu adoçante Línea, pingo seis gotas. O adoçante do escritório deixa aquele gostinho ruim no final, e açúcar eu não uso para não engordar...

14 de jun de 2014

Condicionamento animal.


Meu prédio é de escada e no meu trabalho tem ascensoristas. Daí que hoje em dia, toda vez que chego no destino em um elevador qualquer, me vem a compulsão de dizer "Obrigado!".
E eu me sinto um pinscher adestrado....


[]´s

Um momento na minha história...

Poucas vezes fui um estudante de primeira linha. Nunca estudava. Mas no segundo e terceiro ano, sob a pressão do "você tem que passar no vestibular", mudei um pouco.
Eu me sentia reconhecido, na sala, como provavelmente o terceiro mais bem-sucedido nas notas, na média geral. Tinha o Campbell, o Xampú, e tinha eu. Algumas das minhas notas, como redação e história, por exemplo, eram maiores até do que as do Xampú - mas na média ele ficava à frente porque em exatas ele mais que tirava a diferença, apesar de eu ter ótimas notas.
Era bom, porque não tinha perseguição com quem tirava notas altas - a turma toda era gente boa, bom relacionamento, cervejas e pagodes juntos, bons tempos.
Daiana era também uma aluna com desempenho de primeira, ali por perto da minha performance.
E um momento que eu me lembro, meio que de realização, foi uma vez no intervalo que Daiana perguntava sobre um problema de vetores para Campbell e eu, por perto, ao ver que ele não sabia responder, fui ao quadro e expliquei para os dois como era o funcionamento daquele sistema.
Sei que é bobagem, mas me lembro disso até hoje.
O assunto, na verdade, não veio por ele mesmo. Estou com várias cervejas na cabeça, e estava lembrando disso agora, ali, por conta de uma discussão de bar sobre inteligência, mérito, ascensão profissional e realização. Campbell hoje é rico - e não é pouco, não. Eu me defendo, aqui em Salvador, muito longe de ser rico (por muito leia-se um tanto mesmo). Daiana está no interior - sei pelo orkut - teve filho cedo, e não aparenta estar com o mesmo saldo de FGTS que eu...
Aí que nessa eu tava analisando que deu a lógica, profissionalmente. Mas no fundo, no fundo, o quanto isso importa?
Quer dizer: talvez Daiana seja muito mais feliz que eu e Campbell, talvez não, talvez as metas, os valores de cada um tenham sido diferentes.
A gente vai passando pela vida e vendo que, às vezes, desistir é uma coisa realmente boa. Porque nem todas as idéias, nem todos os planos, nem todas as minhocas que a gente planta na cabeça num determinado momento são bons. Ou, se são, às vezes são bons para um momento, e não para a vida inteira.
Eu tenho umas maluquices um tanto velhas, que eu acho que tô resistindo demais em desistir. E isso só me prejudica.
E tenho outras com as quais, com muito orgulho, vou até o fim.

[]´s

Bobagenzinha...

Diógenes Pacheco
Vens para o aniversário de teu irmão? 15:27

Lu
Vous 15:28

Diógenes Pacheco
Vius 15:28

Pipoca.

Hoje cheguei em casa e, assim de surpresa, tive que telefonar para Rina e Carla (minhas nobres "salva-vidas" em assuntos médicos) , conseguir um médico em hospital público, e sair correndo de novo com Valdirene (a "babá") e Davi - o moleque.
Quase botaram fogo na casa com uma panela de óleo para fazer pipoca esquecida no fogão, enquanto assistiam TV. Davi abanou a fumaça sobre a panela, o que precipitou o incêndio, e Val tacou água no óleo para apagar. O teto está preto, a boca do fogão mais ainda.
Por sorte ninguém se queimou, mas pouco depois Val começou a sentir muita dor nas costas. Suspeitamos de intoxicação pela fumaça. No final das contas, o médico verificou e foi só tensão muscular por conta do susto. Tomou um Voltarém.
As vezes parece que as coisas desandam quando eu não estou por perto... E até outro dia eu era só um moleque - eu mesmo já botei fogo na minha própria mão, com álcool. Agora sou eu aqui cobrando que Davi estude na recuperação de matemática - aconteceu comigo, também, mas não na sexta série - e tirando as dúvidas dos exercícios, e tal. E decidindo quais brigas comprar e quais não.
Os papéis vão mudando e a gente se acomoda sem nem ver.

Lista das 4 coisas.


Lista das quatro coisas, recebida de Rina.

Quatro empregos que já tive:

- Técnico em Micro-Informática (montagem e manutenção de computadores);
- Auxiliar de programação (bancos de dados em Clipper);
- Estagário da compensação do Banco do Brasil;
- Funcionário da Caixa.

Quatro filmes que assisto sempre que passam:

- K-9
- O Resgate do Soldado Ryan
- De Volta Para o Futuro (qualquer um deles)
- O Pai da Noiva

Quatro programas que gosto na Tv:

- Programa do Jô
- Simpsons
- Friends
- Jogos do Flamengo

Quatro pessoas que me mandam e-mail regularmente:

- Sabrina Sato
- Juliana Paes
- Grazi Massafera
- Ana Paula Arósio
(Todas procurando conversa, mas eu não dou bola...)

Quatro coisas que não sei, mas deveria:

- Dizer não
- Disfarçar bem
- Ganhar dinheiro
- Paquerar

Quatro coisas que faço diariamente:

- Tomar banho
- Usar cotonetes
- Dirigir
- Exercitar a paciência

Comidas que gosto:

- Farofa de ovo
- Pizza
- Quase qualquer coisa feita de amendoim
- Canjica

Quatro objetivos a curto prazo:

- Me formar
- Começar a ganhar uma quantidade melhor de dinheiro
- Colocar Davi numa escola melhor
- Fazer mestrado

Passo essa lista para Dito, Carol, Ane e Léo. (E quem mais se sentir à vontade.)

[]´s

Todo Mundo é Comediante

Aniversário do Fusca, comemorado pelo Clube do Fusca da Bahia e pelo clube de antigomobilismo. Lá ia eu chegando no tal encontro de fuscas, no estacionamento do parque da cidade, com meu besourinho verde. Na chegada, passava por um estacionamento comum, onde haviam Palios, Gols, Kas e Celtas, e vendo à frente os belos Fusquinhas e companhia, com plaquinhas pretas e tais. Uns cones dividindo a parte do estacionamento onde estavam os fuscas da parte onde estavam os demais carros.
Não sabia direito como a coisa funcionava, e ao chegar tinha um funcionário do evento junto aos cones, que foi chegando junto ao carro.

- Como é aí, amigo? Todo fusca entra ou tem alguma distinção!
E ele me responde, já retirando os cones.
- Não! O pessoal disse que estava vindo aí um fusca verde. Deve ser você!

Não dá mais para confiar em ninguém. Todo mundo é comediante, hoje em dia.

6 de jun de 2014

Texto da mãe.

Davi, Luca, chuva e tal.
(Texto de minha mãe, que não em blogue, e fica enviando e-mails para todos da lista.)

Levantam, um dengoso e um bicudo. Se arrastam pela casa de manhã, com preguiça de comer, de vestir, de escovar os dentes. Assistem desenho na TV bem enroscadinhos um no outro deitados no sofá. Umas nove horas começam a entrar as vozes dos amigos pela janela. Eles então começam a despertar de verdade. Se agitam e daqui a pouco estão avisando que vão descer. Escovaram os dentes? Não. Vão escovar. Pelas janelas eu ouço as conversas. Todos papos dignos de nota. A minha memória não retém nada, tudo se perde, mas fica o sentimento de que eles são demais!

Hoje bateu um vento forte de repente. Fui à janela ver onde estavam porque ia chover. Não os vi em lugar nenhum. Adultos e crianças corriam para seus prédios e nada dos meus meninos. Aí comecei a adorar a ventania. Abri mais a janela, estiquei o corpo para a frente e continuei olhando em todas as direções. A chuva ia ser forte e eles estão gripados.

Lá estavam eles! Subiram no muro da frente do condomínio, seguraram as mãozinhas na grade que tem sobre o muro e, com o corpo encurvado pela força do vento, gritam como se estivessem voando... Consigo chamar a atenção deles e ordeno aos gritos que venham porque vai chover. Não está chovendo! - Davi grita de lá. Foi só ele falar a chuva começou e em um instante estava forte. Vieram correndo, empurrados pelo vento forte, se molhando, com os braços abertos, Davi gritando:

- O furacão dos Estados Unidos chegou no Brasil!!

E Luca logo atrás:

- O furacão dos Estados Unidos chegou no Brasil!
!
[]´s
(Ôs figurinhas! :)
Luzes

Cada uma dessas janelas acesas, a esta hora da madrugada, limita alguma razão marginal. O motivo dos que estão fora da hora, dos que estão sozinhos. O entendimento maturado, de quem não apenas engole idéias, mas as deixa no fruteiro madrugadas a fio, e experimenta-as a cada tom.
Mistérios, tal qual a luz de minha janela ao chegar lá. E será que eles também devaneiam?
São olhos abertos, acesos, inquietos no seu mergulho madrugada adentro. Olhos impacientes. Tantos vermelhos, alguns molhados.
Todos jogados pela cidade, como estrelas aceleradas pelo Big-Bang. São objetos passivos dessa inércia em estúpidas velocidades, até que, em choque com outros olhos, supernovas.
E seus destroços vão acender muitas janelas, sua luz se fracionar por muitas lágrimas, se chocar com meteoros, entender melhor os olhos, por essa cidade excessiva, lançadas, a partir do canto da janela, apenas as luzes aos olhos.
Mas a esta hora da madrugada não há perigo - apenas conseqüências.

[]´s
O texto abaixo - Visita de Despedida - foi em 28/11.

Ontem, às cinco e pouco da manhã, já abastecíamos o carro. Naquele posto Petrobrás que fica na saída da Bonocô para a BR.
Foram dois carros. Dois tios, um primo e minha avó no Ecosport de um destes. Eu e minha patota no meu Paliozinho.
Meu avô já estava lá.
Trezentos e cinqüenta quilômetros. Boa parte deles, de estrada destruída. De Capim Grosso até Serrolândia está melhor ir pela estrada de terra que margeia a estrada de asfalto, de tão esburacada que a "oficial" está. O carrinho sofreu horrores.
Visitamos vovó Avertina - minha bisavó por parte de mãe e avô.
Uma daquelas visitas "de despedida".
Vovó está a quatro anos de cama. Não enxerga. Entende, mas não consegue falar direito. Difícil a situação. Aí a gente vai, pega na mão dela, e fala:
"É Didio, vó! De Lessinha! Vim ver a senhora! Sua benção!"
E meu avô emendava contando as novidades, naquela perspectiva boa.
"Lembra de Dido, mãe? Tá um homão! Tá fazendo faculdade, e trabalha no banco já. Tem a casinha dele lá em Salvador..."
Apresentou Luca, meu sobrinho:
"É Luca! É seu tataraneto, mãinha! Filho de Luciana, de Lessinha..."
E Luquinha tocava nela meio sem jeito.
Minha mãe, minha avó, meu avô, passavam mais tempo ao seu lado, contando sobre outras pessoas, familiares, amigos de antigamente.
Nós tomamos uma cerveja no bar ali do lado, com os primos distantes de "Serrote", almoçamos, dormimos, acordamos, despedimos de minha bisavó, e pegamos a estrada de volta para Salvador. Saímos umas três e meia. Ainda demos um pulinho na fazenda de Tia Zó, mas sem tempo nem para aceitar o cafezinho. Agora, além dos nossos, o Focus do meu avô.
Chuva torrencial e noite na estrada. Risadas em família, buracos quase estourando pneus, bobagens, menino chorando, conversas soltas, apreensão pela situação, paradas em postos de gasolina para comer salgadinhos suspeitos.
Dez horas da noite, chegamos. Quebrados, depois de rodar mais de setecentos quilômetros de estrada ruim em um dia.
Consternados por "Dona Avertina". Contentes pelo gesto.
E, com o que não se pode lutar, a conformação.


---

Nova visita.

Domingo agora ela se foi. A poucos dias entregou os pontos: no mal falado, baixo, rouco, os que estavam acostumados entenderam "eu quero morrer", "o que é que eu estou fazendo aqui?".
E se recusava a comer, comia pouco.
Vovó não sentia dor física. Estava, sim, presa demais pela sua condição. E, nem tinha pensado nisso antes, por manter-se consciente devia sofrer demais em saber da iminência da morte, e passar o dia sem poder distraír-se com a vida.
Dessa vez muito mais gente estava lá. Filhos, netos, bisnetos, tataranetos. E o que se viu foi paz e compreensão, no lugar da revolta. A tristeza, natural, acompanhada do sentimento de que era o melhor para ela.
E somou-se a isso o grande encontro da família, que a tanto não ocorria, e as notícias das vidas de todos, promessas de visitas... Quem sabe, algumas venham a se confirmar.
E a lembrança que me marca da minha bisavó era das vezes em que eu, menino, fui em Serrolândia. Ela, que já era bem velhinha, usava uns óculos grandes e grossos que a deixavam, para quem via, com olhos tão ampliados que ultrapassavam os limites do rosto. Para mim, parecia um personagem de contos de fadas. Por sua prestatividade, ela estava sempre indo buscar um café, um biscoito, bombom, e voltando em nossa direção. E a cena engraçada eram os olhos crescendo exponencialmente a cada passo...

[]´s

29 de mai de 2014

Autoridade de sopa.

Sopa.

Minha avó, em visita, me pergunta se eu não tenho autoridade para botar os meninos para tomar sopa.
Autoridade nem é a questão. Eu fico é com pena, mesmo.

Discriminado.

Discriminação no trabalho.

Armaram um baba. Aqui a média de idade dos funcionários - homens são bem uns vinte - deve estar pelos 42 anos. Destoamos eu e um outro funcionário, mais novo que eu na empresa, já que ele é do último concurso, e que de idade é uns três anos mais velho que eu. Tô com 25. Mas ele não conta, na história, porque é um desses caras do tipo que não joga futebol.
Só que eu jogo. E o pessoal fez uma regra séria no baba, que a idade mínima para jogar seria de 35 anos.
A regra não serviu só para me cortar. Funcionários de outros setores falaram em levar filhos, sobrinhos, e a galera vetou implacavelmente. Ainda tentei argumentar que eu não era filho nem sobrinho de ninguém, que eu era colega, aqui, e tal, e que eu nem jogava bem. Um dos colegas considerava autorizar minha entrada.
- É, Alex. Diógenes dá para encarar. Nem é esse boleiro todo, mesmo, não!
- É! Não é esse boleiro todo mas, menino novo, assim, começa a correr e quem é que acompanha? Você que vai marcar?
- É... bem... por esse lado, então...
Não insisti mais. Não quero ir aonde não sou bem vindo. E até achei engraçado, o pessoal tendo "medo" de meu futebol. Melhor nem ir mesmo, para não estragar a fama... :)

[]´s

They don't believe me!'


Enroleition

I was a little high, riding the car, singing "The Trawlerman's Song", following the player. Driving, singing, playing an imaginary guitar, and certainly smiling.
My friend Ludmilla hadn't any shame of to ask:

- Você tá cantando mesmo, ou é só enroleition?

Maybe it's cause of my stile. People wouldn't bet a single coin on me.

[]´s

28 de mai de 2014

Qualquer coisa - Cena.

O bebê morreu com cinco meses, do quê não vem ao caso. Era 1966 e as cores das ruas, dos carros, das casas, das árvores, e até do céu eram diferentes. Só a sombra tinha essa mesma cor.
O caixão era muito pequeno e branco, e minha mãe, Mima e quatro amigas que os nomes não me vem, foram chamadas para carregá-lo, todas com cinco anos de idade.
Preocupadas em como se vestir, resolveram por vestidos coloridos de São João.
E passou assim a marcha fúnebre, pelas ruas de Jacobina, às duas horas da tarde. O sol sobre o pequeno caixão branco produzia uma luz ofuscante, que fazia as meninas apertarem os olhinhos, que iluminava os vestidos, dois cor-de-rosa, um amarelo, um azul, um verde, um vermelho.
Os que seguiam, olhavam com lágrimas de um desespero profundo.
Mas, na foto, tudo é preto e branco.

[]´s

Mamãe e o ar-condicionado.

Qualquer coisa - Minha velha mãe e o ar-condicionado.

Desde que, há poucos meses, sou o "porto seguro" da família Pacheco repartição Trapo. como gostava de dizer meu ex-padrasto, coleciono algumas anedotas interessantes.
Duas delas dizem respeito à minha velha mãe, hospedada há menos de três meses aqui, mas desde antes freqüentadora habitual.
Ela, que é a única que tem uma posição familiar, dentro de um conceito amplo, suficiente para possibilitar o repouso em meu quarto sem meu prévio consentimento.
O primeiro curioso acontecido foi quando, depois de uma bela noitada, cheguei em casa às seis da manhã. O ar-condicionado estava desligado. Ela foi para o quarto dela e eu, depois de tomar banho, escovar os dentes, etc, embalei na cama e liguei o ar.
Para minha surpresa, lá marcava 15º.
No outro dia, ao ter com minha respeitável genitora, indaguei.

- Mãe? Tava bom ontem o clima no quarto?
- Filho! Eu botei o ar no mais fraquinho, que eu nem gosto muito de tanto frio, mas ficou insuportável o quarto!
- No mais fraquinho?
- É... Era a potência 15, se não me engano.
- O número tá certo, mãe... mas aquilo quer dizer quinze graus...
- Ohh!

----

E hoje, tô tomando cerveja desde umas seis horas da tarde, mas fiz questão de vir escrever aqui (04:30 da manhã). Cheguei e o quarto estava trancado. Desde lá de baixo tinha percebido o ar ligado. Fiquei receoso dela estar com o namorado no quarto, já que ele tem vindo muito aqui e... bem... essas histórias davam um capítulo à parte, que eu NÃO quero contar.
Bati na porta e ela saiu com uma cara acabada. (Sozinha, ao menos)
Fiquei um pouco preocupado.

- Tava chorando, mãe?
- Não, filho. Tava em sono profundo.
- Ah...
- Esse seu quartinho com ar-condicionado é uma maravilha para dormir!
- Falou. Boa noite!
- Boa.

Quando fui ver, o ar estava no modo ventilador, e ainda por cima na potência média. E a noite tá tranqüilamente para mais de trinta graus... :)
Hehehe... Amanhã eu conto! :)

Xô voltar 100% da atenção prá Fórmula 1, que Schummacher acabou de rodar e Rubinho tá em quarto! :)

[]´s

Luca Melo e o carrinho quebrado.

Causo - Luca e o carrinho.

Luca é meu sobrinho. Quatro anos.
Ontem ganhou um carrinho de controle remoto. Um porschezinho vermelho, nada demais, mas bacaninha.
Dei o presente e saí por duas horinhas. Quando voltei, ele estava do lado de fora da porta de casa, na área comum. O prédio é escada, dei de cara com o moleque.

- Tio Didio! Tio Didio!
- Diga, cara!!
- Eu não quebrei o carrinho não, viu?
- Mas... o carrinho tá quebrado?
- Não! Tá funcionando!

Sei.
Perguntei para Ana. O carrinho tinha descido escada abaixo, e após tal experiência cinematográfica, não vinha apresentando total controle de suas funções motoras.
Mexi no carrinho - a bateria estava baixa. Certamente o atrito das rodas aumentou no acidente, e com a bateria já baixa, o motor não empurrava. Troquei as baterias e funcionou.
Luca estava brincando no térreo, e deixei para avisar depois.
Mais tarde, conversando com sua bisavó, minha avó Maria, fazia-se de coitadinho e queixava-se:

- Vovó Lessi me deu um pintinho que pula! Tio Didio me deu um carrinho, mas já quebrou!

Percebendo que tinha falado na minha frente, e que eu olhei para a cara dele, imediatamente consertou, afastando o telefone do ouvido.

- Quebrou mas foi só um pouquinho, viu tio?

Moleque...


[]´s

Péssimo para soletrar.

S de ... "sacanagem"!

Eu não sei por que diabos, mas eu sou péssimo soletrador.

- Qual é seu código de embarque, senhor?
- IM44FH.
- O senhor pode soletrar, por favor?
- Claro. É I de... de... "Imóvel". (A esta altura eu já estou num misto de nervoso e rindo de mim mesmo. E é 0300.). M... de...
- Perdão, senhor. I, como em "Igreja"?
- Isso! (Por que diabos não pensei em Igreja antes?) M de... de... (passam-me pela cabeça palavras ridículas como Matuto, Malvinas, Mira...)
- N de navio, senhor?
- Não! M. M de...
- M de Maria, senhor?
- É. M de Maria! (Maria era fácil!!) Depois quatro, quatro, F de faca (essa também paciência) e H de... de... (sem sacanagem, só conseguia pensar num Helefante, mas não tem H, e eu perdi minha concentração no esforço de evitar rir alto...)

[]´s

Catástrofe.

Cotidiano - Microsoft Catástrofe.
Olha o quilo da mensagem de erro que o Access me deu. Uma vez, muito tempo atrás, em outro banco de dados, mandei o Access fazer uma operação e ele demorou, demorou, tomei cafezinho, falei no telefone, demorou, não fez o que eu pedi e me retornou outra pérola: "Ocorreram 97.442 erros durante a operação". Podia ter me avisado logo no primeiro - me poupava uns quarenta minutos...
[]´s

Capacidade de julgamento prejudicada.

Nem sempre o que parece um bom assunto às três da madrugada continua parecendo pela manhã.

[]´s

O dia mágico.

Eu adio a curtição - boa parte dela -, para aquele dia mágico no futuro, quando todos os meus problemas estarão resolvidos.
Estava algo animado, atualmente, com a casa nova. Pensando que o dia em que eu me mudasse, e ajeitasse a casa direitinho, poderia ser esse dia prometido.
Estou fazendo planos de devolver os livros que nunca devolvi, aproveitando a reorganização da mudança. Doar metade do meu armário, jogar uns bons quilos de papéis velhos fora, me desfazer dessa cadeira velha do computador, que me dá dores nas costas, comprar um liquidificador novo e decente, uma mesa de sinuca, estabelecer um dia na semana para a turma (ou o que for possível recompor da velha turma) ir jogar um sinuca lá em casa, comprar uma rede para a varanda, um par de cachorros, levar a TV para a assistência, comprar um som decente, ver todo mundo que eu há muito estou querendo ver.
Mas estive pensando que meu eldorado não está assim tão próximo. Enquanto eu não me formar, meu tempo continua apertado, e a melhora da qualidade de vida fica em compasso de espera.
E depois de me formar, ao bem da verdade, vou querer melhorar no emprego ou de emprego.
O certo é parar de adiar.

Presente de Ana

Ana é tipo minha segunda mãe, por circunstâncias da vida. Fez aniversário em fevereiro. Minha velha mãe, Lessi, a titular da pasta, quando conversamos sobre isso sugeriu:

- Você, Luciana e Davi deveriam esse ano dar um presente legal para Ana!

Concordei. Ano passado, afinal, nem lembro se dei presente. Se dei, foi fraco.
Com um bom atraso fui ao Iguatemi. Comprei alguns presentes que estavam pendentes e o de Ana foi o com limite mais alto de preço, para fazer jus à proposta. Não digo quanto foi porque seria uma deselegância. Foi uma bolsa bacana, mesmo.

Deixei em casa com Davi, encomendado para Ana, quando porventura ela aparecesse. Quando apareceu, abriu o presente e minha mãe viu.

Eis que esses dias, pouco depois do episódio, estive em casa, e minha mãe, com cara e jeito de sentida, me diz:

- Eu vi o presente que você deu para Ana!
- Ué? Não gostou? Foi uma bolsa legal!
- Muito legal! Quero ver é no meu aniversário!!
- ... ? Mas você mesma disse que eu deveria dar um presente legal para Ana!!
- É. Mas comigo não é assim!

Boca de zero nove, minha mãe.

Umas cervejinhas...

Retornei uma ligação que Mariazinha tinha me feito mais cedo, sem saber do que se tratava, e, após os cumprimentos habituais, veio a pergunta.

- Ó... Você não quer umas cervejinhas, não?
- Hã?

Foi meio inesperado, a primeira impressão foi que tinha sido um jeito estranho de chamar para tomar uma, mas logo associei com a festa de Maurício que havia acontecido esse sábado, e da qual, pelo que me lembro (saí no lixo) sobrou um bocado de cerveja, realmente. E como a referência de cachaceiro soy yo...

- Sobrou da festa de Maurício e você não tá sabendo o que fazer com elas, né, tia?
- É.
- Quero, sim! Valeu.
- Mas não é só isso, não. Tenho que tirar da geladeira de minha mãe, que ela chega de viagem amanhã. Vai ficar feio sua vó chegar e achar a geladeira dela cheia de cerveja, né?
- Ah, claro! Hehe... Passo para buscar hoje à noite!

(Entendi...)

27 de mai de 2014

Amarero.

Causo - Luca amarelo.

Luca descendo a escada hoje cedo para ir à escola:
- Vóóó, quando eu fecho o olho assim apertado depois eu abro e fica tudo amarelo!
- Ei vóóó! ... eu falei "amarero" direitinho! Eu não sabia falar "amalero" mas agora eu já sei!

Visita a Avertina.


Ontem, às cinco e pouco da manhã, já abastecíamos o carro. Naquele posto Petrobrás que fica na saída da Bonocô para a BR.
Foram dois carros. Dois tios, um primo e minha avó no Ecosport de um destes. Eu e minha patota no meu Paliozinho.
Meu avô já estava lá.
Trezentos e cinqüenta quilômetros. Boa parte deles, de estrada destruída. De Capim Grosso até Serrolândia está melhor ir pela estrada de terra que margeia a estrada de asfalto, de tão esburacada que a "oficial" está. O carrinho sofreu horrores.
Visitamos vovó Avertina - minha bisavó por parte de mãe e avô.
Uma daquelas visitas "de despedida".
Vovó está a quatro anos de cama. Nao enxerga. Entende, mas não consegue falar direito. Difícil a situação. Aí a gente vai, pega na mão dela, e fala:
"É Didio, vó! De Lessinha! Vim ver a senhora! Sua benção!"
E meu avô emendava contando as novidades, naquela perspectiva boa.
"Lembra de Dido, mãe? Tá um homão! Tá fazendo faculdade, e trabalha no banco já. Tem a casinha dele lá em Salvador..."
Apresentou Luca, meu sobrinho:
"É Luca! É seu tataraneto, mãinha! Filho de Luciana, de Lessinha..."
E Luquinha tocava nela meio sem jeito.
Minha mãe, minha avó, meu avô, passavam mais tempo ao seu lado, contando sobre outras pessoas, familiares, amigos de antigamente.
Nós tomamos uma cerveja no bar ali do lado, com os primos distantes de "Serrote", almoçamos, dormimos, acordamos, despedimos de minha bisavó, e pegamos a estrada de volta para Salvador. Saímos umas três e meia. Ainda demos um pulinho na fazenda de Tia Zó, mas sem tempo nem para aceitar o cafezinho. Agora, além dos nossos, o Focus do meu avô.
Chuva torrencial e noite na estrada. Risadas em família, buracos quase estourando pneus, bobagens, menino chorando, conversas soltas, apreensão pela situação, paradas em postos de gasolina para comer salgadinhos suspeitos.
Dez horas da noite, chegamos. Quebrados, depois de rodar mais de setecentos quilômetros de estrada ruim em um dia.
Consternados por "Dona Avertina". Contentes pelo gesto.
E, com o que não se pode lutar, a conformação.
[]´s

Frio em Conquista.


Sete e meia da noite todo mundo dorme. Às onze trago uma água, através do velho corredor. As portas e janelas do quarto fechadas. O corpo enrolado com dois cobertores, exceto a mão esquerda, que mantém sob a luminária um livro velho. Com aquele cheiro bom de livro velho. Guardado na estante há trinta anos.

Os móveis, as paredes, as cortinas e as pinturas, meu avô e minha avó. Toda a casa parece ter sido guardada na estante há trinta anos. É o único lugar no mundo que continua o mesmo para mim, desde sempre. É a casa onde viveu meu pai.

Mas ainda esse ano vão comprar, demolir e começar a erguer um prédio comercial.

E depois disso, possivelmente, nunca mais pego o ônibus para Conquista...

A síntese da noite.


A insônia é parte de mim. Parte da minha natureza. Agora são duas e meia da manhã, e eu não durmo. Perambulo entre os cômodos recortando minha noite em distintos pedaços, assisto um filme, uma parte do jornal, como o primeiro produto numa bela embalagem que encontro na geladeira, vou ao banheiro, verifico as mensagens...
E penso. Nessas horas me ocorrem as pequenas bobagens que monto em peças e transformo em um pouco mais desta excrescência, seiva salgada da boca seca e da pele mal-dormida, transmutada em lama e depositada neste mangue tétrico, de letras e interessâncias em blogues e afins...
Noutros tempos, mais alegóricos, lembro-me de ter pintado este mesmo quadro com diferentes letras - "sinais jogados entre dois portos, refletidos à noite duma baía com águas crispadas, gritando Save Our Souls". Algo assim.
Pintado, dobrado, e entregue em meio a uma galeria de imagens que fariam sentido para alguém com os olhos certos...
Um destes recortes da minha noite, agora, me fez lembrar palavras recentes do meu avô. Eu aprendi a sério isso - ouvir os mais velhos. Garanto que tem muito valor. (De preferência, pulando ao menos uma geração.)
O velho conversou comigo sobre a distância das pessoas, sobre as marés da vida - não nestas palavras, que nosso papo é prático. Mas em suma, disse que estes tempos que não aproveitamos junto com quem é importante, eles não voltam. (É claro, mas é bom sintetizar.) E a vida é curta, mas o tempo perto destas pessoas é muito menor.
Porque por curta que a vida seja, ela tem sempre umas cheias e vazantes, uns terremotos, uns freios de arrumação...
"Quando eu vim trabalhar em Salvador, meu filho, ficou a promessa de que a gente ia sempre se ver - minhas irmãs, meu pai e minha mãe. A gente era bem unido! Meu pai e minha mãe já se foram. Mas hoje, quando é que eu posso ver minhas irmãs mais? Tenho que cuidar da família aqui, elas tem as famílias delas lá, fulano tá doente, beltrano foi transferido para Juazeiro, e assim a vida vai."
É um baita dum exemplo.
E eu sou um destes caras que se afasta.
Minha mãe, outro dia, disse que eu sou muito ocidental. (Talvez isso explique um pouco porque eu recomendo pular uma geração - ou talvez minha ocidentalidade chegue à falta de autocrítica.) Ocidental no sentido de indiscrição, desequilíbrio, descuidado.
Mas eu acho que vou aos poucos. Sabe como é que funciona?
Tem gente que chega chegando - na nossa vida, à nossa porta, para nossa festa de aniversário, para nos visitar num hospital. Falando alto, "e aí", se abanca, ocupa um espaço, agrada ou não.
Tem gente que chega aos poucos, com um sorriso por dia no trabalho, anos a fio, e depois um café, e depois e depois...
Tem gente que a gente rema para ficar longe, e às vezes nem tem tanta certeza assim...
Tem gente que vai embora tão fácil que você se sente como se nunca tivesse existido. Tem gente que, por tanto que eu tenha feito, não foi embora.
Tem gente que vai embora às lágrimas, aos berros, aos poucos. Gente que evapora, gente que foi mas mais parece que ficou. Gente que, quem sabe não tenha ido...
E a verdade, a síntese da noite (que faz a insônia, quem sabe, valer a pena), é que eu queria estar por perto de muita gente, e estou de muito pouca...

[]´s

Era uma tarde quente...


A mesma aula de direito, de sexta, das nove à uma da tarde. Dessa vez eu cheguei mais cedo e estava sentado mais à frente. O professor falava ininterruptamente, com ênfases de voz, gesticulação abundante, interação com a turma. Havia aprendido o nome de uns quatro ou cinco alunos, aos quais pedia trechos de leitura, questionava alguns pontos do assunto, utilizava como exemplo para alguma lei.
A sala abafada, a acústica ruim, o burburinho constante, o calor que desanimava. Meu único alento era olhar aquela loira, ali perto. O professor sempre interagia com ela, o que me dava a desculpa perfeita para olhar para aquele lado.
A alguma altura dos acontecimentos o professor falou de sua profissão, delegado da civil. E, pouco depois, em algum desses exemplos, acionou a loira:

- Você, Helena! Você me disse que também é policial, né? Anda armada! Se acontecesse a situaç***...

O resto do que ele disse eu não pesquei. Depois da revelação de que ela era policial, o áudio da cena foi baixando, ficando confuso, insosso, e sumiu.
Essa Helena é minha colega em administração, e eu tenho reparado ela há uns dois semestres.
Pouco depois, por sugestão do grupo, o professor organizou a sala em semi-círculo. Ajudei com as cadeiras vazias, Helena bem ali do lado. Como não poderia deixar de ser, ficou uma cadeira vazia - porém com o material de alguém que devia ter ido ao banheiro, ou ao bebedouro - entre nós.
Logo após um comentário pertinente do professor sobre a igualdade de direitos, ela retrucou, virando para mim.

- É. Só que a mulher tem jornada tripla.
- Depende do caso.

Sorrimos cordialmente.
Pouco depois eu que puxei assunto:

- Ei.
- Hã.
- Não é cantada, não. Já reparou que você é completamente uma personagem de romance noir?
- Oi?
- É. Você é loura, bonita, elegante, dirige uma moto custom (ela tem uma Intruder 125 com bagageiros laterais de couro, que fica estacionada do lado da minha Tornado), e, ainda por cima, é policial civil. Sem falar no lugar onde você está. Uma sala abafada, monótona, com ventiladores funcionando devagar, sombra entrecortada, gente ordinária e desinteressada...
- Hahá. Gostei!
- ...
- ...

- E você? Que tipo de personagem você é?
- Eu?
- É.
- Nunca tinha pensado nisso... Mas eu não dava para grande coisa, não. Sou só um desses vira-latas que gosta de beber cerveja e jogar conversa fora.
- ...
- Acho que, na melhor das hipóteses, eu dava para ser o cara que toma cerveja, numa comédia. Talvez uma comédia romântica água com açúcar...
- Eu gosto de cerveja.
- ...
- ...
- Whisky combinaria mais... Mas... Tem alguma programação para hoje à noite?

É claro: tudo isso aí, a partir da hora que eu supostamente teria puxado assunto, não aconteceu. Foi um "flash-forward" desses, de personagem de comédia romântica. Desses que ficaram bem populares depois do Alta-Fidelidade. E que nunca realmente acontecem.

Falha interna de comunicação.

Estou numa falta de tempo crônica - com oito matérias na faculdade mais trabalho e coisas a resolver da casa, da moto, etc -, e fico deixando lembretes para mim mesmo.
Pequenas mensagens que envio para mim mesmo, para depois, ao lê-las, lembrar de ler um blogue tal, escrever um texto sobre tal idéia, me inscrever num concurso tal, de fazer uma determinada coisa. Não são só as mensagens: lembretes na agenda do celular, octavados escritos dentro da carteira...
Mas a verdade é que, não porquê não queira, mas por falta de tempo livre, acabo por nunca ver os tais lembretes do que adiei quando estava muito ocupado.
Estou sempre muito ocupado. E a conseqüência é uma falha na comunicação. A comunicação comigo.

3 de nov de 2011

Me ajuda?
Passou a mão na cabeça já imaginando o problema.

- Boa noite.
- Boa noite.
- Carteira de motorista e documento do carro, por favor.
- Seu guarda... Estou sem os documentos. Eu vim só comprar pão, rapidinho, e não trouxe nada...

Ela olhava com aqueles olhos de cachorro pidão. Era uma mulher pequena, bonita, jovem. Ele fez uma expressão de "sem jeito".

- Mas... A senhora teria alguém para telefonar que possa trazer os documentos aqui?
- Ter, até tenho. Mas também não trouxe o telefone...

Enquanto ela falava no telefone do policial, emprestado, ele tentava disfarçar para que os superiores não percebessem a situação. Foi ao fundo do carro, pediu para ela ligar as luzes traseiras.

- Senhora, a luz traseira esquerda está queimada.
- Ah, é. Queimou semana passada, ainda não tive tempo de consertar. Tem problema, né?
- Mas, senhora...
- ...
- Conseguiu pedir para alguém trazer o documento?
- Deixei recado com a empregada. Meu pai deve retornar já, já.

Ela entrega o telefone para ele. Ele tira o telefone do silencioso imaginando atender o pai da menina.

- A senhora pode abrir o porta-malas, por favor?
- Eu não sei como abre, não. O senhor pode abrir...
- Vá embora...
- Hein?
- A senhora está liberada. Pode ir.
- Olha... Obrigado, viu?

Ela saiu com vergonha. Ele estava pensando em, ao menos, tentar chamá-la para sair, com o telefone que ficou na lista de chamadas. Mas não sabia o nome.

13 de set de 2011

Meu carro, pô...

Pobre é uma tristeza...
Dei entrada no hotel bacana. Entreguei a chave do carro para o camarada que fica à porta para estacioná-lo. Tomei café da manhã calmamente. Quando subi para o quarto, alguém já estava atento para me acompanhar no elevador carregando minhas bagagens.
Me atrapalhei com a chave-cartão, dispensei educadamente as explicações sobre acionamento das luzes e eletrônicos, ajeitei rapidamente minhas coisas, fui para o treinamento.
E até o meio da tarde não conseguia deixar de pensar na chave do carro, que eles nunca tinham me devolvido. Imagens mentais me atormentavam - alguém passando com meu carro por Taguatinga, ou o carro parado junto a um desses botecos da Asa Norte, ou batendo num Corsa Sedã.
Durante um coffee-break resolvi deixar o orgulho de lado. Presumia que estava fazendo besteira, mas mesmo assim perguntei discretamente a uma colega que me inspirava confiança.

- Vem cá... Eles não devolvem mesmo a chave do carro?

Passei atestado de tabaréu, claro. Ela elegantemente me tranqüilizou. Ao menos pude prestar mais atenção às aulas, doravante.

7 de ago de 2011

Consertar Fusca

Get your motor running!
Passei mais de um mês sem ligar o Fusca. Hoje de manhã, quando fui vê-lo, já desconfiava que ele não iria pegar.
Motor de arranque ok, bateria ok, mas nada de pegar. Já tinha visto esse filme antes. A gasolina velha entope os tubos, algo assim. Tentei como pude, até buscar um mecânico. Fiquei olhando decidido a entender o que ele ia fazer, e da próxima vez economizar o "guaraná".
A primeira coisa que ele fez foi tirar e raspar o platinado. Porra! Essa eu sabia! Não lembrei de tentar. Vacilo. Deu uma limpada no encaixe, também. Eu acompanhando de olho. Ele tirou a mangueira que joga a gasolina do tanque para o carburador. Eu tinha tirado antes de buscá-lo, mas não soube direito o que fazer. Apertei como quem quer tirar milk-shake de um canudo. Não me pareceu que ia dar certo, e não deu. Ele chupou a gasolina do tanque, jogou numa tampa de amaciante que tinha arranjado no chão.
Eu, de cara, estava pensando na gasolina na boca. Matar, não mata - já vi tanta gente fazendo isso. Se todo mundo faz não sou eu que não posso fazer. É só tomar cuidado para não engolir.
Só que depois lembrei que eu ia ter que botar a boca na mesma ponta de tubo que aquele mecânico tinha acabado de chupar.
Aí não.
Ele usou aquela gasolina para jogar direto no carburador. O carro pegou de primeira. Eu não sei se o fato de ele ter puxado desentupiu alguma coisa. Da próxima vez vou testar. Raspo o platinado, limpo o encaixe, compro gasolina no posto e jogo no carburador. Sem chupar a mangueira do tanque. Se der, deu.

23 de jun de 2011

Um tipo diferente de silêncio

Tripulação, preparar para o pouso.
Depois de um tempo morando no caminho do aeroporto, os aviões deixaram de me incomodar. Aqui eles passam baixo e o barulho é grande.
Mas não acordam, não atrapalham de dormir, sufocam todos os outros sons e são como um tipo diferente de silêncio.
Também parecem despertar um sentimento de que "está tudo bem" - os aviões continuam passando, seguindo seu caminho, as coisas lá fora continuam como sempre.

12 de abr de 2011

Alento

A Webjet manda, uns bons dez dias antes da data da viagem, a sugestão de que você faça seu "Web" check-in.
Não acredito que haja muita gente besta o suficiente, por aí, para fazer um check-in com dez dias de antecedência. Em dez dias o mundo muda.
Mas, ainda assim, não deixa de ser uma felicidade receber a mensagem no meio de uma tarde atribulada, suspirar, e pensar: "daqui a dez dias eu tô na Bahia!".

27 de fev de 2011

Pingue-Pongue (Ou "O gatilho rápido de Renatinha")

Show your weapons!
Com alguns dias de affair, íamos pegando intimidade e conversando de um jeito mais solto.
 
- Fala sério... Você ia para o Bar das Velhas com o objetivo de paquerar, mesmo?

Embora à primeira vista isso possa parecer o contrário, eu que tinha perguntando a ela.
 
- Ia, ué?
- Por quê?
- Não achei você lá?
- Por acaso. Eu não teria ido lá paquerar.
- Por isso!
- Por isso?
- É. Sei lá... Quando a gente vai naqueles barezinhos na Asa Sul fica tudo parecendo falso!
- ???
- Os caras todos penteadinhos, bonitinhos, demonstrando que são ricos - sejam ou não! Metidos a viris, vencedores, e ao mesmo tempo dando uma de educadinhos... Não gosto, sabe. É artificial.
- Lá no Bar das Velhas, por outro lado...
- Lá é outra coisa, ó! Achei você meio desarrumado.
- Eu até que tinha pretendido me arrumar...
- Não é assim nenhum galã!
- Mas pegável, pelo jeito!
- Claro, claro... Pobre!
- Pô! Para os padrões de Brasília!
- Para os padrões dos trinta anos, também!
- É...
- Pois é...
- Fale mais! O assunto tá agradável!
- Tá bom! Não tem o pau grande!
- Pô! Mas também não é pequeno!
- Mas para alguém tão desprovido de atrativos, poderia ao menos...
- Você tá comigo porquê, ora?
- Boa pergunta!
- ...
- ...
- Talvez meu senso de humor... Eu te faço rir!
- Fica fazendo piada o tempo todo, acaba acertando uma ou outra! Mas não chega a ser nenhum Danilo Gentili.

Fui comparado com o Danilo Gentili e perdi. Tô no lixo. O jeito é tentar dobrar a aposta.

- Bom de cama!
- É... É. Isso é!
- !
- Mas não fique convencido!

Ah, os diálogos de Renatinha!

Aquela sexta-feira! (Ou "O dia em que eu conheci a Renatinha!")

Enche o tanque!
Naquela sexta-feira minha namorada havia viajado. Meus amigos - colegas de trabalho mais velhos que eu - só toparam sair para o que eles mesmos chamam de "bar das velhas". É um bar dançante chamado Calypso na Asa-Norte, algo parecido com o velho Casquinha de Siri de Salvador.
A idéia é que as mulheres que estão lá, de uma faixa de idade realmente mais avançada do que a minha - e do que a deles, até - tem uma atitude mais pró-ativa em relação ao processo de aproximação. Não se fazem de tão exigentes, não querem perder mais tempo do que já perderam com bobagens na juventude, não estão procurando nada tão especial. Querem se divertir e pronto, acabou. Em um certo aspecto, as mulheres depois de certa idade tornam-se homens, se é que vocês entendem meu ponto de vista.
De qualquer forma, enchíamos a cara despreocupadamente, como de costume. Na primeira hora, Miro já tinha cruzado olhares com uma coroa recauchutada, com plástica no rosto, silicone na comissão de frente. As pernas pareciam originais de fábrica, e ainda davam uma boa caminhada. João não tinha feito contato, mas estava tranqüilo. Eu ainda não tinha bebido o suficiente para baixar o controle de qualidade.
Dentro de mais algum tempo, os dois dançavam animadamente com duas coroas, e eu estava sozinho no bar.

- Perdido por aqui?

Me virei esperando encontrar alguma coroa mais assanhada, e avaliar a proposta, mas, puta-que-pariu, que surpresa! A menina era linda e devia ter uns vinte e cinco anos. E com um olhar sacana. Pensei rapidamente que isso não podia ser verdade, que essas coisas não aconteciam comigo, que quando aconteciam eu estava acompanhado (já aconteceram mas eu sempre estava acompanhado!), que os caras iam ficar de queixo caído, que eu não podia estragar tudo, e de tanto pensar já estava demorando de responder...

- Acho que estou um pouco perdido, sim... Mas... Mas você também não parece muito com este lugar!
- Gosto daqui.
- Está sozinha?
- Vim com umas colegas de trabalho, mas elas já estão na pista de dança. Eu tava lá, também, mas resolvi parar um pouco.
- Aceita um drinque?
- Pode ser uma cerveja!
- Uma cerveja, por favor!

Cerveja! Quantos pontos uma mulher ganha quando pede uma cerveja?! Se pede Bloody-Mary, sex on the beach, vinho, champanhe, coca-cola, tá valendo, mas se pede uma cerveja... Sei lá. Sinto que desceu um degrau e se nivelou a mim. Que talvez possamos ir para o carnaval e encher a cara de cerveja, ir para as festas e curtir tomando todas, que não precisa de frescura, que um dia vamos discutir sobre a comparação do sabor da Antárctica com a Skol, Heineken, Brahma, Nova Schin... Hein? Que prazer inexplicável! "Essa Itaipava também não é ruim, não"!
Nada melhor que uma mulher que bebe cerveja!

- Voando alto?
- Viajei um pouco, aqui, mesmo...
- Hum...
- Você vem sempre aqui?
- Gosto daqui?
- Por quê?
- Sei lá. Sei que sou meio estranha no ninho, mas acho mais legal assim. Quando vou pros bares com a turma da nossa idade fica sempre aquele negócio - parece que tá todo mundo querendo alguma coisa, todo mundo mostrando o que não é, fazendo pose. Aqui as coisas são mais sinceras!
- Mas as opções devem ser mais limitadas...
- Às vezes pinga alguma coisa melhorzinha!

Coisa melhorzinha! Tá no papo! Nunca ser chamado de "coisa melhorzinha" me soou tão bem!

- É. Não vou negar que há surpresas boas, mesmo!

Sorrimos.

- Vamos dançar?

Fomos.
Mais tarde nos beijamos. Só depois lembramos de perguntar os nomes...

- Qual é o seu nome, mesmo?
- Renata! E o seu?
- Diógenes.
- Como?

A música estava alta, nós estávamos bêbados, minha mãe não sabe em que confusão ela me colocou com esse nome...

- Pode me chamar de Dido!
- Renatinha, então, Dido!
- Prazer!
- Você ainda nem imagina!

Uauuuuu!